BR- 116 
 
            Uns tapam buracos no asfalto 
            e param. Postes, 
            estátuas macabras 
            esperam trocados:
            a sorte. 

            Outros vendem frutas 
            no atraso das lombadas. 

            Uns atacam vidros fechados 
            e gritam. Vozes 
            vedadas, lentas, 
            esmolam sobras, 
            com sorte. 

            Outras são putas 
            no anoitecer da estrada. 
            Estrias do maltrato: 
            traços da miséria
            sobre o corpo 
            em cortes. 

            Todos tristes trapos 
            lembranças de viagem, 
            recatos tímidos da vida, 
            recados tétricos da morte. 

            Todos 
            – um país –  
            trocados da sorte.
             

da Bahia a Recife, 1999