Ditadura da Popularidade
         
        I

        O povo está no poder: dita.
        É mercado, é opinião
        sem face. É a miséria
        da popularidade.

        São padres cantantes,
        moças na dança.
        Leve a música
        e o gesto leve,
        crença, bunda e sabonete.
         
         
        II
         
        As pesquisas ditam.
        Mandam: o povo está
        sempre certo. O povo é,
        o povo quer, o povo
        demanda, o povo
        reclama.

        Mandam: seja apenas
        a mesma merda
        que o povo
        ama.
         
         
        III
         
        Mandam: seja aeromoça na vida.
        Sorria sempre: bailarina medíocre.
        Faça-se média. Desconsidere-se.

        Não pense, nunca faça pensar,
        não seja irônico,
        diga só o que querem: ouvir-se
        no espelho da mesmice.

        Deixe-se xingar, entregue-se,
        venda-se de corpo e alma.

        E, acima de tudo, calma:
        nunca reclame
        (des)contente(-se) e cale-se.
         
         
        IV
         
        Crie-se como imagem,
        (vazio marcante)
        marque-se,
        migalhe-se,
        seja só o velho,
        espalhe-se farelo.

        Anule-se: anúncio
        refrescante,
        seja refrigerante
        anta ante.
         

        V

        Ensinam assim:
        como quem hoje
        canta.
        Bajule, puxe,
        seja banal.
        Pule, grite,
        apague-se nas luzes.
        Transforme todo som
        poema problema
        em apelo sexual.

        Apele: salve sua pele.
         
         
        VI
         
        Medalhões, pomadas.
        (Machado vendo antes)
        Palhaços, patetas, enganadores,
        falsos magos, pseudopoetas,
        professores:

        Uni-vos no segredo do bonzo.

        O povo julga, joga
        pedras, o povo
        é sábio, sabe:
        quem planta pérolas
        colhe tempestade.
         

        Frederico Barbosa
        03/11/99