João Pessoa,
quarta-feira, 04 de setembro de 2002
LITERATURA
Contra
a cultura dos reacionários
O poeta
e crítico literário Frederico Barbosa detona ícones
e não crê na inspiração poética
ANA
CAROLINA ABIAHY
Repórter
Em tempos em
que a cultura é fragilizada pelo poder de uma mídia associada
ao consumo, a poesia parece fadada ao esquecimento. Mas alguns artistas
ainda seguem acreditando no fazer poético. Entre estes, está
o crítico literário e professor Frederico Barbosa, um “pernambucano
paulistano”, considerado um dos poetas mais brilhantes da atualidade. O
título de seu novo livro, Cantar de amor entre os escombros, a ser
lançado pela Landy editora em outubro, revela esta necessidade de
colocar em forma poética os velhos temas que afetam o ser humano,
o amor e a sexualidade. O livro está disponível no http://sites.uol.com.br/cantardeamor/
Este ano, ele
já publicou a antologia organizada com Claudio Daniel Na Virada
do Século – Poesia de Invenção no Brasil, que
teve lançamento inclusive no VIII Fenart. Nesta entrevista ao O
NORTE, ele ataca ícones da cultura que considera como reacionários,
diz que não acredita em inspiração na poesia e reafirma
sua busca constante pela criação, invenção
através do experimentalismo.
Livros -
O seu primeiro livro, Rarefato, publicado em 1990, foi considerado
pelo O Estado de S. Paulo um dos melhores do ano. Em 1993, Nada
Feito Nada ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira
do Livro, mas para Fred o mais importante foi ter sido parte da coleção
Signos, organizada por Haroldo de Campos. Em 2000, além da Antologia
da Poesia Clássica Brasileira - Cinco Séculos de Poesia,
lançou Contracorrente, seu terceiro livro de poemas. Em 2001
lançou Louco no Oco sem beiras - Anatomia da Depressão.
SOBRE O AUTOR
Frederico cursou Física e estudou Grego na Universidade de São
Paulo, formou-se em Letras-Português em 1985, mas abandonou a pós-graduação
em Literatura Brasileira na USP. Seus poemas são traduzidos e publicados
nos Estados Unidos, Austrália, México, Espanha e Colômbia.
Você
disse que a antologia de poesia contemporânea era uma resposta às
pessoas que acusam falta de qualidade na produção atual.
O público leitor de poesia perdeu a qualidade ou há sempre
resistência com os experimentalismos?
Resistência
à novidade, à experimentação, sempre houve.
Na poesia e em todas as artes. Eu diria que mesmo na vida em geral. Eurípides
já era criticado pelos conservadores (vide Aristófanes) na
Grécia clássica. O público leitor não perdeu
a qualidade. O que perdeu totalmente a qualidade no Brasil foi a crítica.
A universitária normalmente se pauta por critérios arcaicos
e retrógrados. Anda, em geral, anos atrás da literatura mais
inventiva. A da imprensa praticamente inexiste, ou serve apenas como propagandista
dos best-sellers ou dos seus “clubinhos” de amigos. Certamente a antologia
que eu e o Claudio Daniel organizamos vem para mostrar que há muita
vitalidade e variedade na nova poesia brasileira. Mas é claro que
não esgotamos o panorama. Descobri agora mesmo, aqui na Paraíba,
poetas muito interessantes que poderiam constar da antologia. Espero que
outras sejam feitas, para que possam ser divulgados nacionalmente.
Você
fez recentemente um poema em reação a Ariano Suassuna e Ferreira
Gullar. Quer comentar o que te incomoda nos dois?
O poema a que
você se refere se intitula “Rua da Moeda - tapa na cara dos reaças”.
Eu o li no recital organizado em João Pessoa pelo amigo Antônio-Mariano
Lima. Trata-se de uma defesa do rock (a rua da Moeda é o reduto
do rock no Recife Antigo). Critico a postura reacionária e xenófoba
de Gullar e de Suassuna. Sobre o primeiro digo: “enquanto / o poeta reaça
/ na lagoa / (maranhense) carioca / realça a garça / e condena
o rock”, referindo-me a seu poema “Na Lagoa”, em que o poeta maranhense
critica o rock ouvido no Rio de Janeiro... O que me incomoda muito em Gullar,
que considero um poeta absolutamente medíocre, é sua postura
conservadora, oposta à experimentação poética
e existencial. Não me surpreendi em nada ao vê-lo apoiar a
senhora Sarney (vade retro)... Foi um momento de perfeita coerência.
Já em relação a Suassuna, quase tudo me incomoda.
Figura certamente carismática e encantadora, além de grande
dramaturgo, acaba seduzindo os ouvintes que parecem se encantar com sua
forma de falar e não atentar para o que ele diz. E o que diz ele?
Defende o nacional-popular, ataca quaisquer inovações, critica
tudo o que for “estrangeiro” às suas concepções estreitas
e preconceituosas. Digo sobre ele no poema: “um passadista / síntese
da direita / do preconceito / da retro seita / brada armorial” ou ainda:
“quanto mofo / intolerância tola / implicância ditadura / na
voz do velho / ariano feito dogma / preconceito feito god”. O “god” em
inglês é para provocar mesmo. Acho triste que se dê
tanto valor às idéias mofadas de Suassuna enquanto temos
no Nordeste grandes artistas inventores e eternos revolucionários
como Jomard Muniz de Britto.
Você
critica uma poesia chamada intelectualóide. O que seria isto?
Sou completamente
a favor de que o poeta (o artista em geral) tenha completo domínio
da sua arte, na prática e na teoria, que se complementam. O grande
artista deve saber tudo sobre sua arte. O que critico são os poemas
“certinhos”, bonitinhos mas ordinários, que caracterizam uma boa
parcela da produção poética da minha cidade, São
Paulo, hoje em dia. Na verdade, que não falam de nada que importe,
apenas são exercícios bem feitos seguindo os critérios
da crítica mais conservadora. Conhecimento algum é excessivo.
O que atrapalha não é o saber, é não saber
ver ou ser.
Por que você
desistiu de defender sua dissertação de mestrado? Desenvolveu
aversão ao discurso acadêmico?
Na verdade não
via (ou vejo) sentido em escrever um texto para apenas meia dúzia
de leitores. O discurso acadêmico é autocentrado e míope,
pouco enxerga além de suas fronteiras. Isso me incomoda muito. O
tema da minha dissertação era a poesia de Sebastião
Uchoa Leite, que considero um dos maiores poetas que o Brasil tem ou já
teve.
Um dos temas
constantes em sua obra é a depressão, isto já te fez
deixar de escrever?
Não deixei
de escrever por estar deprimido. Na realidade a depressão, paradoxalmente,
é o que mais me estimula a escrever. Para tentar superá-la,
para tentar organizar o meu próprio caos. Deixei de escrever por
não considerar que tinha muito a dizer. Quando descobri uma nova
forma de me expressar e, principalmente, quando comecei a sentir necessidade
de dizer algumas coisas para as pessoas, voltei a escrever e publiquei
dois livros de poemas e algumas antologias nos últimos dois anos.
Não acredito em inspiração de forma alguma. Acredito
em 100% de trabalho.
A injustiça
social é algo que te preocupa e isto está expresso em alguns
poemas. Deve ser uma preocupação do artista? É possível
ser um bom artista e omisso?
É possível
ser um bom artista omisso sim. Mas não creio que seja possível
ser um artista significativo no seu tempo. Isso vai muito além de
ser um bom artista. Significa atingir em cheio os leitores. Por outro lado,
há inúmeros escritores bem fracos que não são
omissos... Na verdade o que quero é ser ao mesmo tempo um bom poeta
e um poeta que fale das coisas significativas do meu tempo. Não
considero isso inconciliável.
Você
fez críticas sobre algumas publicações do jornalismo
cultural que teriam um viés ideológico muito reacionário.
Está
havendo algo de errado em toda a vida cultural brasileira, eu creio. Há
uma síndrome do retrocesso pairando no ar. Tornou-se mais fácil
retroceder do que continuar a experimentar, quando a arte chegou a ponto
de radicalização da experimentação. Poetas
advogam hoje o retorno ao verso parnasiano ou romântico, por se sentirem
incapazes de carregar o fardo da busca de formas novas... Eu aposto na
continuidade do projeto modernista, na manutenção do espírito
revolucionário permanente. Só isso fará com que a
arte siga em frente de maneira significativa.
Em geral,
você concorda com as críticas, análises feitas sobre
a sua obra?
Algumas críticas
foram ótimas, mesmo sendo, por vezes, restritivas. O que me irrita
são as críticas de orelhada, como as dos que insistem em
dizer que faço poesia concreta. A influência dos concretos
na minha poesia é clara e muito me orgulho dela. Mas dizer que escrevo
poesia concreta é um absurdo. Tenho quatro livros publicados. Neles,
o número de poemas remotamente semelhantes a qualquer coisa da poesia
concreta é ínfimo. Mas como sempre elogiei o trabalho de
Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, a crítica já
lê meus poemas partindo do princípio distorcido de que sou
concretista. Seria bom a crítica brasileira ler de fato os poemas
e não se contentar com as declarações dos poetas.
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