Título, Estrutura e Enredo
 

    Dois procedimentos chamam à atenção de imediato no título do livro. A inversão do sintagma vida e morte e a adjetivação do substantivo próprio Severino. Tais recursos poéticos colaboram para realçar aspectos importantes na composição da obra. Segundo Marta de Senna:
 
      "Ao inverter a ordem natural do sintagma "vida e morte", o poeta registra com precisão a qualidade da vida que seu poema visa a descrever: uma vida a que a morte preside. E ambas, morte e vida, têm por determinante o adjetivo "severina". Igualam-se nisso de serem ambas pobres, parcas, anônimas. O procedimento de adjetivação do substantivo é recorrente na poesia de Cabral, e aqui adquire especial relevo por estar em posição privilegiada, no título da peça. Morte e Vida Severina, porque é Severino o protagonista, que, desde a apresentação, insiste no caráter comum de seu nome, antes um "a-nome" no contexto em que vive. De substantivo próprio, "Severino" passa a ser comum; daí a ser adjetivo é um passo. (...) Será interessante advertir que o uso de "severino" como adjetivo no auto cabralino não é senão a reversão da palavra à sua origem. Diminutivo de "severo", "severino" é originariamente um adjetivo. Daí, passou a ser nome próprio, como ocorreu em tantos outros casos nas línguas ocidentais: Augusto, Cândido, Cristiano, Pio, Clemente - para citar apenas alguns exemplos. Ora, o que Cabral realiza é exatamente o retorno do adjetivo ao adjetivo, sendo o novo enriquecido da carga semântica de que foi alimentado durante o "estágio" substantivo próprio, que, no caso específico, é o Severino anônimo do sertão nordestino."
 
      É importante acrescentar que, além de descrever uma vida presidida pela morte, o título também demonstra o percurso feito por Severino durante a peça. Sai da morte para alcançar a vida. A estrutura geral da peça, ou sua macroestrutura, apresenta exatamente este caminho.
     Morte e Vida Severina se divide em 18 cenas ou fragmentos poéticos, todos precedidos por um título explicativo de seu conteúdo, praticamente resumos do que encontramos nos poemas em si. Podemos separá-los em dois grandes grupos.
     As primeiras 12 cenas descrevem a peregrinação de Severino, seguindo o rio Capibaribe, fugindo da morte que encontra por toda parte, até a cidade do Recife, onde, para seu desespero, volta a encontrar apenas a miséria e a morte. Trata-se do Caminho ou Fuga da Morte. Nesta parte o poeta habilmente alterna monólogos de Severino a diálogos que trava ou escuta no caminho.
     As últimas 6 cenas apresentam O Presépio ou O Encontro com a Vida, em que é descrito o nascimento do filho de José, mestre carpina, em clara alusão ao nascimento de Jesus. A peça se encerra, portanto, com uma apologia da vida, mesmo que seja severina. Toda esta parte, com exceção do monólogo final do mestre carpina, foi adaptada por João Cabral de Melo Neto dos Presépios ou Pastoris do folclore pernambucano
 
    Vejamos, através dos títulos explicativos, como o enredo do drama se constrói:
 
I - Caminho ou Fuga da Morte

1. (Monólogo) - O retirante explica ao leitor quem é e a que vai.
2.(Diálogo) - Encontra dois homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: "ó irmãos das almas! irmãos das almas! não fui eu que matei não!"
3. (Monólogo) - O retirante tem medo de se extraviar porque seu guia, o rio Capibaribe, cortou  com o verão.
4. (Diálogo) - Na casa a que o retirante chega estão cantando excelências  para um defunto, enquanto um homem, do lado de fora, vai parodiando as palavras dos cantadores.
5. (Monólogo) - Cansado da viagem o retirante pensa interrompê-la por uns instantes e procurar trabalho ali onde se encontra.
6. (Diálogo) - Dirige-se à mulher na janela que depois descobre tratar-se de quem se saberá.
7. (Monólogo) - O retirante chega à Zona da Mata , que o faz pensar, outra vez, em interromper a viagem.
8. (Diálogo) - Assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério.
9. (Monólogo) - O retirante resolve apressar os passos para chegar logo ao Recife.
10. (Diálogo) - Chegando ao Recife, o retirante senta-se para descansar ao pé de um muro alto e caiado e ouve, sem ser notado, a conversa de dois coveiros.
11. (Monólogo) - O retirante aproxima-se de um dos cais do Capibaribe.
12. (Diálogo) - Aproxima-se do retirante o morador de um dos mocambos que existem entre o cais e a água do rio.

II - O Presépio ou O Encontro com a Vida

13. (Presépio) - Uma mulher, da porta de onde saiu o homem, anuncia-lhe o que se verá.
14. (Presépio) - Aparecem e se aproximam, da casa do homem, vizinhos, amigos,
duas ciganas, etc.
15. (Presépio) - Começam a chegar pessoas trazendo presentes para o recém-nascido.
16. (Presépio) - Falam as duas ciganas que haviam aparecido com os vizinhos.
17. (Presépio) - Falam os vizinhos, amigos, pessoas que vieram com presentes, etc.
18. (Conclusão da Peça) - O carpina fala com o retirante que esteve de fora, sem tomar parte em nada.
 
 
 
As Cenas da Morte
 
 
     No seu Romanceiro (1828), grande levantamento da poesia popular portuguesa, o poeta português Almeida Garrett apresenta um romance  de origem medieval  em que um triste cavaleiro de Avalor viaja só e desesperançado acompanhando as margens de um rio:
 

 
     É bastante antiga, portanto, a tradição de se colocar em forma poética a perambulação do herói às margens do rio. Tomando como modelo a forma do romance ibérico, pouco antes de escrever Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto havia escrito o longo poema O Rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife (1954), em que dá voz ao próprio rio Capibaribe, que relata seu percurso:
   
     As palavras do poeta ecoam a de um estudioso do século XIX, Manuel da Costa Honorato, que, em 1863, assim descreveu o percurso do Capibaribe:

    "(...) nasce na fralda oriental da serra do Jacarará, um dos ramos dos Cairiris Velhos, no Olho-d'Água do Gavião e Lagoa do Angu, e daí por entre a serra donde nasce e a do Brejo segue, atravessando as comarcas do Brejo, Limoeiro, Pau-d'Alho e Recife, banhando as vilas do Limoeiro e Pau-d'Alho e muitas outras povoações, num leito de rochas de sua fonte até a comarca de Pau-d'Alho, é arenoso daí até o Recife, e se lança no oceano depois de ter feito um curso de 80 léguas pouco mais ou menos."
 
     Se em O Rio já se revelava, além do cuidadoso estudo da hidrografia do Capibaribe, uma preocupação fundamental com a miséria que o rio corta, com os retirantes que o acompanham, nas 12 primeiras cenas de Morte e Vida Severina, o poeta dá voz ao retirante Severino que, fugindo da morte, segue as águas do rio Capibaribe desde a serra da Costela até sua foz em Recife. Vejamos estas cenas:
 
 

1

    Para compor o primeiro monólogo de Severino, assim como todos os outros monólogos do livro, João Cabral de Melo Neto tomou como modelo o romanceiro ibérico. Como os romances portugueses medievais, os monólogos são compostos em medida velha, em versos redondilhos maiores ou heptassílabos, e apresentam rimas  alternadas, algumas perfeitas ou consoantes e a grande maioria toante, entre vogais, como as prefere João Cabral. O monólogo de abertura, composto por 64 versos, pode ser dividido em três partes. Nos trinta primeiros versos, Severino tenta apresentar-se ao público/leitor, mas esbarra na falta de individualidade, na despersonalização do sertanejo depauperado:
 

     Nestes versos, em que predominam as rimas consoantes, encontramos também referências ao papel dos coronéis na vida do sertão, e temos um isomorfismo, uma identificação total, entre Severino e o local em que vivia, a serra da "Costela", magra e ossuda como o sertanejo esfomeado.
     Apresentando-se como um entre tantos retirantes "sem nome", Severino aparece como sinédoque (a parte pelo todo) de todo o povo sofrido do sertão.
     Nos 28 versos seguintes Severino apresenta a descrição dos severinos, iguais na forma e no destino de morrer antes dos trinta de tanto tentar tirar algo da terra intratável. Note-se que descrição da vida severina começa pela apresentação da morte severina.
   
     As rimas neste fragmento já são predominantemente toantes. Severino apresenta a sua vida/morte em 28 versos, exatamente o mesmo número de anos a que, segundo João Cabral, reduzia-se a expectativa média de vida do pernambucano na época: antes dos trinta.
     Já nos 6 últimos versos, Severino anuncia o início de sua peregrinação, desistindo de se individualizar, e apresentando-se como o severino que se vê, portanto aquele que representa todos os outros que os leitores/espectadores devem sempre ter em mente ao acompanhá-lo:
 
 
2

    A cena seguinte apresenta o primeiro diálogo da peça. Inspirado no folclore Catalão, João Cabral apresenta o encontro de Severino  com dois homens que levam um defunto embrulhado em rede para ser enterrado no cemitério de Toritama, sobre o qual o poeta escreve, na mesma época da redação de Morte e Vida Severina, um dos poemas intitulados Cemitério Pernambucano do livro Paisagem com Figuras (1956):
 

 
     No cenário desolado, os irmãos das almas explicam a Severino como e porque morreu o Severino que carregam:
   
     O fragmento revela que a disputa pela terra leva ao assassinato do Severino Lavrador. Através da metáfora da ave-bala que quer mais espaço para voar, João Cabral apresenta os proprietários de terra que, matando impunemente lavradores (com ou sem terra), vão conquistando sempre mais espaço para atirar.
 Em entrevista recente, Cabral aponta para o humor negro existente em certa passagem desta cena:
 
      "A crítica nunca se preocupou com o humor negro de minha poesia. Leia Dois Parlamentos, por exemplo. É puro humor negro. Em Morte e Vida Severina, também existe humor negro. Você lembra daquele trecho: "Mais sorte tem o defunto / irmão das almas / pois já não fará na volta / a caminhada"? Pois bem. A origem disso é uma história que me contaram na Espanha. Dizem que, na época de Franco, ele mandava fuzilar seus inimigos num lugar chamado Sória, que é o mais frio do país. Conta-se que, um dia, um condenado virou-se para os soldados que iriam executá-lo e disse: "Puxa, como faz frio neste lugar". Ao que um dos soldados respondeu: "Sorte tem você, que não precisa fazer o caminho de volta. Foi assim que essa frase foi parar no meio de Morte e Vida Severina. Há mais humor negro do que isso?"
 
 
3

    O monólogo apresenta a insegurança de Severino quanto a que caminho seguir, pois o seu guia, o Capibaribe, secara devido à seca do verão. Cabe lembrar que, de fato, o rio Capibaribe é, desde a sua foz até a cidade de Limoeiro, intermitente, ou seja, corta ou seca durante o verão. A partir de Limoeiro, na entrada da Zona da Mata, até Recife, trata-se de um rio perene.
 

Mapa do rio Capibaribe
 
 
4

    Severino aproxima-se de uma casa em que se cantam excelências  para um defunto chamado Severino. Composta em versos livres, esta cena caracteriza-se pela ironia. Um homem, fora da casa, vai colocando as palavras dos cantadores na perspectiva da vida de não, de privação, que se leva no sertão:
 

 
5

    Desanimado por encontrar apenas morte, quando procurava vida, Severino pensa em interromper a viagem, procurar um trabalho e ir vivendo por lá mesmo:
 

     A morte severina já havia sido descrita no primeiro monólogo e somente agora Severino se refere à vida severina. Severino não encontra vida nem mesmo no rio que julgava perene e de quem se aproxima no desejo de não mais continuar.
 
 
6

    Dialogando com uma mulher à janela, Severino descobre que na região não há trabalho para lavradores como ele, apenas profissionais ligados à morte, rezadeiras como ela, coveiros, ou mesmo farmacêuticos e médicos, têm algo a fazer por lá:
 

7

    Continuando a viagem, Severino alcança a Zona da Mata, que o deixa deslumbrado:
 

 
     Mas Severino não encontra ninguém à vista neste paraíso, apenas avista um cemitério. Sua ingenuidade reveste até o campo santo de otimismo:
   
8

    A ilusão de Severino com a Zona da Mata é logo quebrada quando se aproxima do cemitério e ouve o que dizem do morto os seus amigos:
 

     Trata-se, portanto, da mesma morte severina, que persegue o lavrador onde ele esteja.
 
 
 
9

    Neste monólogo, Severino de certa maneira contradiz o monólogo anterior, em que se mostrava otimista em relação à Zona da Mata. Inicia-se com o verso: Nunca esperei muita coisa. Esperava apenas fugir da estatística que assustara João Cabral: da morte antes dos trinta. Decepcionado com o que ouvira no cemitério, decide apressar o passo para chegar logo ao Recife, pois:
 

 
 
10

    Mesmo chegando ao Recife, o retirante não escapa da morte. Senta-se para descansar exatamente ao pé do muro de um cemitério e escuta a conversa de dois coveiros:
 

     Não há como não lembrar, em relação a esta cena, o célebre diálogo dos coveiros no Ato V, Cena I, da peça Hamlet, de Shakespeare. Ao retornar a Elsenor, Hamlet pára no cemitério e ouve os coveiros (apresentados por Shakespeare como clowns: bobos, palhaços) conversarem sobre o suicídio de sua amada Ofélia. A conversa é absurda, mas não deixa de ter pontos de contato com a situação de Severino. Diz um dos coveiros: "Se o homem vai à água e se afoga, de qualquer modo, queira ou não queira, ele vai, presta atenção nisso. Mas a água vai a ele e o afoga, ele não se afoga - "ergum", aquele que não é culpado de sua própria morte não abrevia a sua própria vida."
 
 
11

    O último monólogo de Severino inicia-se, como o anterior, com o verso Nunca esperei muita coisa. Desiludido com o que alcançara, Severino se dirige a um cais do rio Capibaribe e reflete sobre a chegada a Recife:
 

     O retirante, chegando a seu objetivo, contempla pela primeira vez a idéia do suicídio. Jogar-se, como a Ofélia de Shakespeare, às águas. É bom lembrar que tudo o que o lavrador encontrara até aqui fora a morte. Se só a morte dele se aproxima, por que não se entregar definitivamente a ela?
 
 
 
12

    Severino está por se atirar ao rio quando dele se aproxima José, o mestre carpina , a quem o retirante faz uma série de perguntas, todas respondidas com sabedoria, realismo e prudência:
 

     A conversa é interrompida quando Severino faz a questão crucial:
   
     Neste ponto se inicia o Presépio que finaliza a peça. Interrompida a conversa, Severino e o mestre carpina assistem ao espetáculo do nascimento do filho de José.
 
  
 
O Presépio ou O Encontro com a Vida

     As cinco cenas seguintes da peça apresentam o Presépio dentro da peça. Todas elas foram extraídas, quase literalmente, do folclore pernambucano, mais especificamente do livro de Pereira da Costa, Folk-lore Pernambucano: subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco, publicado originalmente em 1908.
 
 
 

13

    Uma mulher anuncia ao mestre carpina que seu filho nascera:
 

     Trata-se de uma resposta a Severino, que indagara sobre saltar da vida para a morte. Aqui se dá o contrário, a criança salta para a vida.
     Em Pereira da Costa encontramos a seguinte estrofe na Loa do anjo anunciando as pastoras o nascimento do messias:
   
14

    O fragmento seguinte, como todo o Presépio, é inspirado no material recolhido por Pereira da Costa, que registrou nas Jornadas:
 

 
     João Cabral, ironicamente, adapta a fala dos vizinhos que se aproximam da casa do mestre carpina para:
   
     Certamente o poeta se refere aqui ao famoso ensaio do sociólogo recifense Gilberto Freyre intitulado Sobrados e Mocambos (1936). A ironia está em tornar sedutores os mocambos (habitações miseráveis) ao celebrá-los como de certa forma o fez Gilberto Freyre.
 
 
 
15

    As pessoas trazem presentes para o recém-nascido. Em Pereira da Costa temos as Ofertas das Pastoras, em que se lê:
 

 
     Em Morte e Vida Severina, temos a reelaboração:
       João Cabral adapta o original à situação de vida das populações ribeirinhas ao Capibaribe, tornando concretos e locais os presentes oferecidos. Nesta cena enumera uma série de localidades - cidades pernambucanas e bairros de Recife - de onde se originariam os presentes:
       João Cabral de Melo Neto, jogando com os nomes tão sugestivos - como já o notara Manuel Bandeira em Evocação do Recife - das ruas e bairros de Recife, cria um jogo quase surrealista. Na verdade, para quem não sabe que estes são nomes de bairros, a passagem é completamente surrealista.
 
 
 
16

    Duas ciganas prevêem o futuro da criança. Enquanto em Pereira da Costa uma delas era pessimista e a outra otimista, em Morte e Vida Severina a variação das previsões se dá pelo fato da primeira cigana prognosticar um futuro enlameado, terminando como pescador de siri e camarão, e a segunda preconiza-o como operário, mudando-se das margens do Capibaribe para um mocambo melhor nos mangues do Beberibe, o outro rio que corta Recife:
 

 
 
17

    A última cena do Presépio apresenta todos os visitantes do recém-nascido elogiando, ainda seguindo Pereira da Costa, a beleza da criança. Trata-se de uma beleza diferente: pálida, franzina, fraca e magra, mas é beleza que é a afirmação da vida, o brotar da novidade:
 

 
 
18

        Terminado o Presépio, o mestre carpina está pronto para responder à pergunta de Severino:
 

     Curiosamente, a peça se encerra sem qualquer resposta de Severino. Em algumas montagens os encenadores colocaram a última estrofe na boca de Severino e não, como está claro no texto, na do mestre carpina. Esse procedimento vem apenas  reforçar a mensagem final da peça: a de que mesmo a vida quase morte severina, aparentemente sem saída  ou esperança, pode e deve ser vivida.
 
 
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