Título,
Estrutura e Enredo
Dois procedimentos
chamam à atenção de imediato no título do livro.
A inversão do sintagma vida e morte e a adjetivação
do substantivo próprio Severino. Tais recursos poéticos colaboram
para realçar aspectos importantes na composição da
obra. Segundo Marta de Senna:
"Ao
inverter a ordem natural do sintagma "vida e morte", o poeta registra com
precisão a qualidade da vida que seu poema visa a descrever: uma
vida a que a morte preside. E ambas, morte e vida, têm por determinante
o adjetivo "severina". Igualam-se nisso de serem ambas pobres, parcas,
anônimas. O procedimento de adjetivação do substantivo
é recorrente na poesia de Cabral, e aqui adquire especial relevo
por estar em posição privilegiada, no título da peça.
Morte e Vida Severina, porque é Severino o protagonista,
que, desde a apresentação, insiste no caráter comum
de seu nome, antes um "a-nome" no contexto em que vive. De substantivo
próprio, "Severino" passa a ser comum; daí a ser adjetivo
é um passo. (...) Será interessante advertir que o uso de
"severino" como adjetivo no auto cabralino não é senão
a reversão da palavra à sua origem. Diminutivo de "severo",
"severino" é originariamente um adjetivo. Daí, passou a ser
nome próprio, como ocorreu em tantos outros casos nas línguas
ocidentais: Augusto, Cândido, Cristiano, Pio, Clemente - para citar
apenas alguns exemplos. Ora, o que Cabral realiza é exatamente o
retorno do adjetivo ao adjetivo, sendo o novo enriquecido da carga semântica
de que foi alimentado durante o "estágio" substantivo próprio,
que, no caso específico, é o Severino anônimo do sertão
nordestino."
É
importante acrescentar que, além de descrever uma vida presidida
pela morte, o título também demonstra o percurso feito por
Severino durante a peça. Sai da morte para alcançar a vida.
A estrutura geral da peça, ou sua macroestrutura, apresenta exatamente
este caminho.
Morte
e Vida Severina se divide em 18 cenas ou fragmentos poéticos,
todos precedidos por um título explicativo de seu conteúdo,
praticamente resumos do que encontramos nos poemas em si. Podemos separá-los
em dois grandes grupos.
As primeiras
12 cenas descrevem a peregrinação de Severino, seguindo o
rio Capibaribe, fugindo da morte que encontra por toda parte, até
a cidade do Recife, onde, para seu desespero, volta a encontrar apenas
a miséria e a morte. Trata-se do Caminho ou Fuga da Morte.
Nesta parte o poeta habilmente alterna monólogos de Severino a diálogos
que trava ou escuta no caminho.
As últimas
6 cenas apresentam O Presépio ou O Encontro com a Vida, em
que é descrito o nascimento do filho de José, mestre carpina,
em clara alusão ao nascimento de Jesus. A peça se encerra,
portanto, com uma apologia da vida, mesmo que seja severina. Toda esta
parte, com exceção do monólogo final do mestre carpina,
foi adaptada por João Cabral de Melo Neto dos Presépios
ou Pastoris do folclore pernambucano
Vejamos, através
dos títulos explicativos, como o enredo do drama se constrói:
I
- Caminho ou Fuga da Morte
1. (Monólogo) - O retirante
explica ao leitor quem é e a que vai.
2.(Diálogo) - Encontra dois
homens carregando um defunto numa rede, aos gritos de: "ó irmãos
das almas! irmãos das almas! não fui eu que matei não!"
3. (Monólogo) - O retirante
tem medo de se extraviar porque seu guia, o rio Capibaribe, cortou
com o verão.
4. (Diálogo) - Na casa a
que o retirante chega estão cantando excelências para
um defunto, enquanto um homem, do lado de fora, vai parodiando as palavras
dos cantadores.
5. (Monólogo) - Cansado da
viagem o retirante pensa interrompê-la por uns instantes e procurar
trabalho ali onde se encontra.
6. (Diálogo) - Dirige-se
à mulher na janela que depois descobre tratar-se de quem se saberá.
7. (Monólogo) - O retirante
chega à Zona da Mata , que o faz pensar, outra vez, em interromper
a viagem.
8. (Diálogo) - Assiste ao
enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos
que o levaram ao cemitério.
9. (Monólogo) - O retirante
resolve apressar os passos para chegar logo ao Recife.
10. (Diálogo) - Chegando
ao Recife, o retirante senta-se para descansar ao pé de um muro
alto e caiado e ouve, sem ser notado, a conversa de dois coveiros.
11. (Monólogo) - O retirante
aproxima-se de um dos cais do Capibaribe.
12. (Diálogo) - Aproxima-se
do retirante o morador de um dos mocambos que existem entre o cais e a
água do rio.
II
- O Presépio ou O Encontro com a Vida
13. (Presépio) - Uma mulher,
da porta de onde saiu o homem, anuncia-lhe o que se verá.
14. (Presépio) - Aparecem
e se aproximam, da casa do homem, vizinhos, amigos,
duas ciganas, etc.
15. (Presépio) - Começam
a chegar pessoas trazendo presentes para o recém-nascido.
16. (Presépio) - Falam as
duas ciganas que haviam aparecido com os vizinhos.
17. (Presépio) - Falam os
vizinhos, amigos, pessoas que vieram com presentes, etc.
18. (Conclusão da Peça)
- O carpina fala com o retirante que esteve de fora, sem tomar parte em
nada.
As
Cenas da Morte
No seu
Romanceiro (1828), grande levantamento da poesia popular portuguesa,
o poeta português Almeida Garrett apresenta um romance de origem
medieval em que um triste cavaleiro de Avalor viaja só e desesperançado
acompanhando as margens de um rio:
Pela ribeira
de um rio
Que leva
as águas ao mar,
Vai o triste
de Avalor,
Não
sabe se há de tornar.
As águas
levam seu bem,
Ele leva
o seu pesar;
E só
vai sem companhia,
Que os
seus fora ele deixar;
Pois quem
não leva descanso
Descansa
em só caminhar.
É
bastante antiga, portanto, a tradição de se colocar em forma
poética a perambulação do herói às margens
do rio. Tomando como modelo a forma do romance ibérico, pouco antes
de escrever Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto
havia escrito o longo poema O Rio ou relação da viagem
que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife (1954),
em que dá voz ao próprio rio Capibaribe, que relata seu percurso:
Sempre
pensara em ir
caminho
do mar.
Para os
bichos e rios
nascer
já é caminhar.
Eu não
sei o que os rios
têm
de homem do mar;
sei que
se sente o mesmo
e exigente
chamar.
Eu já
nasci descendo
a serra
que se diz do Jacarará,
(...)
Desde tudo
que lembro,
lembro-me
bem de que baixava
entre terras
de sede
que das
margens me vigiavam.
Rio menino,
eu temia
aquela
grande sede de palha,
grande
sede sem fundo
que águas
meninas cobiçava.
Por isso
é que ao descer
caminho
de pedras eu buscava,
que não
leito de areia
com suas
bocas multiplicadas.
Leito de
pedra abaixo
rio menino
eu saltava.
Saltei
até encontrar
as terras
fêmeas da Mata.
As palavras
do poeta ecoam a de um estudioso do século XIX, Manuel da Costa
Honorato, que, em 1863, assim descreveu o percurso do Capibaribe:
"(...)
nasce na fralda oriental da serra do Jacarará, um dos ramos dos
Cairiris Velhos, no Olho-d'Água do Gavião e Lagoa do Angu,
e daí por entre a serra donde nasce e a do Brejo segue, atravessando
as comarcas do Brejo, Limoeiro, Pau-d'Alho e Recife, banhando as vilas
do Limoeiro e Pau-d'Alho e muitas outras povoações, num leito
de rochas de sua fonte até a comarca de Pau-d'Alho, é arenoso
daí até o Recife, e se lança no oceano depois de ter
feito um curso de 80 léguas pouco mais ou menos."
Se em O
Rio já se revelava, além do cuidadoso estudo da hidrografia
do Capibaribe, uma preocupação fundamental com a miséria
que o rio corta, com os retirantes que o acompanham, nas 12 primeiras cenas
de Morte e Vida Severina, o poeta dá voz ao retirante Severino que,
fugindo da morte, segue as águas do rio Capibaribe desde a serra
da Costela até sua foz em Recife. Vejamos estas cenas:
1
Para compor o
primeiro monólogo de Severino, assim como todos os outros monólogos
do livro, João Cabral de Melo Neto tomou como modelo o romanceiro
ibérico. Como os romances portugueses medievais, os monólogos
são compostos em medida velha, em versos redondilhos maiores ou
heptassílabos, e apresentam rimas alternadas, algumas perfeitas
ou consoantes e a grande maioria toante, entre vogais, como as prefere
João Cabral. O monólogo de abertura, composto por 64 versos,
pode ser dividido em três partes. Nos trinta primeiros versos, Severino
tenta apresentar-se ao público/leitor, mas esbarra na falta de individualidade,
na despersonalização do sertanejo depauperado:
O meu nome
é Severino,
não
tenho outro de pia.
Como há
muitos Severinos,
que é
santo de romaria,
deram então
de me chamar
Severino
de Maria;
como há
muitos Severinos
com mães
chamadas Maria,
fiquei
sendo o da Maria
do finado
Zacarias.
Mas isso
ainda diz pouco:
há
muitos na freguesia,
por causa
de um coronel
que se
chamou Zacarias
e
que foi o mais antigo
senhor
desta sesmaria.
Como então
dizer quem fala
ora a Vossas
Senhorias?
Vejamos:
é o Severino
da Maria
do Zacarias,
lá
da serra da Costela,
limites
da Paraíba.
Mas isso
ainda diz pouco:
se ao menos
mais cinco havia
com nome
de Severino
filhos
de tantas Marias
mulheres
de outros tantos,
já
finados, Zacarias,
vivendo
na mesma serra
magra e
ossuda em que eu vivia.
Nestes versos,
em que predominam as rimas consoantes, encontramos também referências
ao papel dos coronéis na vida do sertão, e temos um isomorfismo,
uma identificação total, entre Severino e o local em que
vivia, a serra da "Costela", magra e ossuda como o sertanejo esfomeado.
Apresentando-se
como um entre tantos retirantes "sem nome", Severino aparece como sinédoque
(a parte pelo todo) de todo o povo sofrido do sertão.
Nos 28
versos seguintes Severino apresenta a descrição dos severinos,
iguais na forma e no destino de morrer antes dos trinta de tanto tentar
tirar algo da terra intratável. Note-se que descrição
da vida severina começa pela apresentação da morte
severina.
Somos muitos
Severinos
iguais
em tudo na vida:
na mesma
cabeça grande
que a custo
é que se equilibra,
no mesmo
ventre crescido
sobre as
mesmas pernas finas,
e iguais
também porque o sangue
que usamos
tem pouca tinta.
E se somos
Severinos
iguais
em tudo na vida,
morremos
de morte igual,
mesma morte
severina:
que é
a morte de que se morre
de velhice
antes dos trinta,
de emboscada
antes dos vinte,
de fome
um pouco por dia
(de fraqueza
e de doença
é
que a morte severina
ataca em
qualquer idade,
e até
gente não nascida).
Somos muitos
Severinos
iguais
em tudo e na sina:
a de abrandar
estas pedras
suando-se
muito em cima,
a de tentar
despertar
terra sempre
mais extinta,
a de querer
arrancar
algum roçado
da cinza.
As rimas
neste fragmento já são predominantemente toantes. Severino
apresenta a sua vida/morte em 28 versos, exatamente o mesmo número
de anos a que, segundo João Cabral, reduzia-se a expectativa média
de vida do pernambucano na época: antes dos trinta.
Já
nos 6 últimos versos, Severino anuncia o início de sua peregrinação,
desistindo de se individualizar, e apresentando-se como o severino que
se vê, portanto aquele que representa todos os outros que os leitores/espectadores
devem sempre ter em mente ao acompanhá-lo:
Mas, para
que me conheçam
melhor
Vossas Senhorias
e melhor
possam seguir
a história
de minha vida,
passo a
ser o Severino
que em
vossa presença emigra.
2
A cena seguinte
apresenta o primeiro diálogo da peça. Inspirado no folclore
Catalão, João Cabral apresenta o encontro de Severino
com dois homens que levam um defunto embrulhado em rede para ser enterrado
no cemitério de Toritama, sobre o qual o poeta escreve, na mesma
época da redação de Morte e Vida Severina,
um dos poemas intitulados Cemitério Pernambucano do livro
Paisagem com Figuras (1956):
No cenário
desolado, os irmãos das almas explicam a Severino como e porque
morreu o Severino que carregam:
-- E o
que guardava a emboscada,
irmãos das almas,
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
-- Este
foi morto de bala,
irmão das almas,
mais garantido é de bala,
mais longe vara.
-- E quem
foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
-- Ali
é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.
-- E o
que havia ele feito
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?
-- Ter
uns hectares de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
-- Mas
que roças que ele tinha,
irmãos das almas,
que podia ele plantar
na pedra avara?
-- Nos
magros lábios de areia,
irmão das almas,
dos intervalos das pedras,
plantava palha.
-- E era
grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
-- Tinha
somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
-- Mas
então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
-- Queria
mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
-- E agora
o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
-- Mais
campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
O fragmento
revela que a disputa pela terra leva ao assassinato do Severino Lavrador.
Através da metáfora da ave-bala que quer mais espaço
para voar, João Cabral apresenta os proprietários de terra
que, matando impunemente lavradores (com ou sem terra), vão conquistando
sempre mais espaço para atirar.
Em entrevista recente, Cabral
aponta para o humor negro existente em certa passagem desta cena:
"A
crítica nunca se preocupou com o humor negro de minha poesia. Leia
Dois Parlamentos, por exemplo. É puro humor negro. Em Morte e Vida
Severina, também existe humor negro. Você lembra daquele trecho:
"Mais sorte tem o defunto / irmão das almas / pois já não
fará na volta / a caminhada"? Pois bem. A origem disso é
uma história que me contaram na Espanha. Dizem que, na época
de Franco, ele mandava fuzilar seus inimigos num lugar chamado Sória,
que é o mais frio do país. Conta-se que, um dia, um condenado
virou-se para os soldados que iriam executá-lo e disse: "Puxa, como
faz frio neste lugar". Ao que um dos soldados respondeu: "Sorte tem você,
que não precisa fazer o caminho de volta. Foi assim que essa frase
foi parar no meio de Morte e Vida Severina. Há mais humor negro
do que isso?"
3
O monólogo
apresenta a insegurança de Severino quanto a que caminho seguir,
pois o seu guia, o Capibaribe, secara devido à seca do verão.
Cabe lembrar que, de fato, o rio Capibaribe é, desde a sua foz até
a cidade de Limoeiro, intermitente, ou seja, corta ou seca durante o verão.
A partir de Limoeiro, na entrada da Zona da Mata, até Recife, trata-se
de um rio perene.
Pensei
que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
Tenho de saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
4
Severino aproxima-se
de uma casa em que se cantam excelências para um defunto chamado
Severino. Composta em versos livres, esta cena caracteriza-se pela ironia.
Um homem, fora da casa, vai colocando as palavras dos cantadores na perspectiva
da vida de não, de privação, que se leva no sertão:
-- Finado
Severino,
quando passares em Jordão
e os demônios te atalharem
perguntando o que é que levas...
-- Dize
que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.
-- Finado
Severino,
etc...
-- Dize
que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.
-- Finado
Severino,
etc...
-- Dize
que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves.
5
Desanimado por
encontrar apenas morte, quando procurava vida, Severino pensa em interromper
a viagem, procurar um trabalho e ir vivendo por lá mesmo:
só
morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas por que
parar aqui eu não podia
e como o Capibaribe
interromper minha linha?
A morte severina
já havia sido descrita no primeiro monólogo e somente agora
Severino se refere à vida severina. Severino não encontra
vida nem mesmo no rio que julgava perene e de quem se aproxima no desejo
de não mais continuar.
6
Dialogando com
uma mulher à janela, Severino descobre que na região não
há trabalho para lavradores como ele, apenas profissionais ligados
à morte, rezadeiras como ela, coveiros, ou mesmo farmacêuticos
e médicos, têm algo a fazer por lá:
--
Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente,
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.
7
Continuando a
viagem, Severino alcança a Zona da Mata, que o deixa deslumbrado:
--
Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quanto mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nessa terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm a água vitalícia.
Cacimbas por todo lado;
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira.
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Mas Severino
não encontra ninguém à vista neste paraíso,
apenas avista um cemitério. Sua ingenuidade reveste até o
campo santo de otimismo:
Decerto
a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
e aquele cemitério ali,
branco na verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.
8
A ilusão
de Severino com a Zona da Mata é logo quebrada quando se aproxima
do cemitério e ouve o que dizem do morto os seus amigos:
--
Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
--
É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
--
Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
--
É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
--
É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
--
É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.
Trata-se, portanto,
da mesma morte severina, que persegue o lavrador onde ele esteja.
9
Neste monólogo,
Severino de certa maneira contradiz o monólogo anterior, em que
se mostrava otimista em relação à Zona da Mata. Inicia-se
com o verso: Nunca esperei muita coisa. Esperava apenas fugir da estatística
que assustara João Cabral: da morte antes dos trinta. Decepcionado
com o que ouvira no cemitério, decide apressar o passo para chegar
logo ao Recife, pois:
(...) não
senti diferença
entre o
Agreste e a Caatinga,
e entre
a Caatinga e aqui a Mata
a diferença
é a mais mínima.
Está
apenas em que a terra
é
por aqui mais macia;
está
apenas no pavio,
ou melhor,
na lamparina:
pois é
igual o querosene
que em
toda parte ilumina,
e quer
nesta terra gorda
quer na
serra, de caliça ,
a vida
arde sempre com
a mesma
chama mortiça.
10
Mesmo chegando
ao Recife, o retirante não escapa da morte. Senta-se para descansar
exatamente ao pé do muro de um cemitério e escuta a conversa
de dois coveiros:
--
Eu também, antigamente,
fui do
subúrbio dos indigentes,
e uma coisa
notei
que jamais
entenderei:
essa gente
do Sertão
que desce
para o litoral, sem razão,
fica vivendo
no meio da lama,
comendo
os siris que apanha;
pois bem:
quando sua morte chega,
temos de
enterrá-los em terra seca.
--
Na verdade, seria mais rápido
e também
muito mais barato
que os
sacudissem de qualquer ponte
dentro
do rio e da morte.
--
O rio daria a mortalha
e até
um macio caixão de água;
e também
o acompanhamento
que levaria
com passo lento
o defunto
ao enterro final
a ser feito
no mar de sal.
--
E não precisava dinheiro,
e não
precisava coveiro,
e não
precisava oração
e não
precisava inscrição.
--
Mas o que se vê não é isso:
é
sempre nosso serviço
crescendo
mais cada dia;
morre gente
que nem vivia.
--
E esse povo lá de riba
de Pernambuco,
da Paraíba,
que vem
buscar no Recife
poder morrer
de velhice,
encontra
só, aqui chegando
cemitérios
esperando.
--
Não é viagem o que fazem,
vindo por
essas caatingas, vargens;
aí
está o seu erro:
vêm
é seguindo seu próprio enterro.
Não
há como não lembrar, em relação a esta cena,
o célebre diálogo dos coveiros no Ato V, Cena I, da
peça Hamlet, de Shakespeare. Ao retornar a Elsenor, Hamlet
pára no cemitério e ouve os coveiros (apresentados por Shakespeare
como clowns: bobos, palhaços) conversarem sobre o suicídio
de sua amada Ofélia. A conversa é absurda, mas não
deixa de ter pontos de contato com a situação de Severino.
Diz um dos coveiros: "Se o homem vai à
água e se afoga, de qualquer modo, queira ou não queira,
ele vai, presta atenção nisso. Mas a água vai a ele
e o afoga, ele não se afoga - "ergum", aquele que não é
culpado de sua própria morte não abrevia a sua própria
vida."
11
O último
monólogo de Severino inicia-se, como o anterior, com o verso Nunca
esperei muita coisa. Desiludido com o que alcançara,
Severino se dirige a um cais do rio Capibaribe e reflete sobre a chegada
a Recife:
E chegando,
aprendo que,
nessa viagem
que eu fazia,
sem saber
desde o Sertão,
meu próprio
enterro eu seguia.
Só
que devo ter chegado
adiantado
de uns dias;
o enterro
espera na porta:
o morto
ainda está com vida.
A solução
é apressar
a morte
a que se decida
e pedir
a este rio,
que vem
também lá de cima,
que me
faça aquele enterro
que o coveiro
descrevia:
O retirante,
chegando a seu objetivo, contempla pela primeira vez a idéia do
suicídio. Jogar-se, como a Ofélia de Shakespeare, às
águas. É bom lembrar que tudo o que o lavrador encontrara
até aqui fora a morte. Se só a morte dele se aproxima, por
que não se entregar definitivamente a ela?
12
Severino está
por se atirar ao rio quando dele se aproxima José, o mestre carpina
, a quem o retirante faz uma série de perguntas, todas respondidas
com sabedoria, realismo e prudência:
--
Severino, retirante,
o meu amigo
é bem moço;
sei que
a miséria é mar largo,
não
é como qualquer poço:
mas sei
que para cruzá-la
vale bem
qualquer esforço.
(...)
--
Severino, retirante,
muita diferença
faz
entre lutar
com as mãos
e abandoná-las
para trás,
porque
ao menos esse mar
não
pode adiantar-se mais.
A conversa
é interrompida quando Severino faz a questão crucial:
--
Seu José, mestre carpina,
que diferença
faria
se em vez
de continuar
tomasse
a melhor saída:
a de saltar,
numa noite,
fora da
ponte e da vida?
Neste ponto
se inicia o Presépio que finaliza a peça. Interrompida
a conversa, Severino e o mestre carpina assistem ao espetáculo do
nascimento do filho de José.
O
Presépio ou O Encontro com a Vida
As cinco
cenas seguintes da peça apresentam o Presépio dentro da peça.
Todas elas foram extraídas, quase literalmente, do folclore pernambucano,
mais especificamente do livro de Pereira da Costa, Folk-lore Pernambucano:
subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco,
publicado originalmente em 1908.
13
Uma mulher anuncia
ao mestre carpina que seu filho nascera:
Trata-se de
uma resposta a Severino, que indagara sobre saltar da vida para a morte.
Aqui se dá o contrário, a criança salta para a vida.
Em Pereira
da Costa encontramos a seguinte estrofe na Loa do anjo anunciando as
pastoras o nascimento do messias:
Pastoras,
belas pastoras,
Que na
relva estais deitadas
Descansais,
e não sabeis,
Que a luz
do céu é chegada?
14
O fragmento seguinte,
como todo o Presépio, é inspirado no material
recolhido por Pereira da Costa, que registrou nas Jornadas:
Todo o
céu e terra
Vos cantem
louvor,
Ó
Menino Deus,
Nosso redentor.
João
Cabral, ironicamente, adapta a fala dos vizinhos que se aproximam da casa
do mestre carpina para:
--
Todo o céu e a terra
lhe cantam
louvor
e cada
casa se torna
num mocambo
sedutor.
--
Cada casebre se torna
no mocambo
modelar
que tanto
celebram os
sociólogos
do lugar.
Certamente
o poeta se refere aqui ao famoso ensaio do sociólogo recifense Gilberto
Freyre intitulado Sobrados e Mocambos (1936). A ironia está
em tornar sedutores os mocambos (habitações miseráveis)
ao celebrá-los como de certa forma o fez Gilberto Freyre.
15
As pessoas trazem
presentes para o recém-nascido. Em Pereira da Costa temos as Ofertas
das Pastoras, em que se lê:
Minha pobreza
tal é
Que uma
oferta não achei!
Na aldeia
não encontrei
Cousa que
fizesse fé;
Em Morte
e Vida Severina, temos a reelaboração:
-- Minha
pobreza tal é
que
não trago presente grande:
trago
para a mãe caranguejos
pescados
por esses mangues;
mamando
leite de lama
conservará
nosso sangue.
João
Cabral adapta o original à situação de vida das populações
ribeirinhas ao Capibaribe, tornando concretos e locais os presentes oferecidos.
Nesta cena enumera uma série de localidades - cidades pernambucanas
e bairros de Recife - de onde se originariam os presentes:
João
Cabral de Melo Neto, jogando com os nomes tão sugestivos - como
já o notara Manuel Bandeira em Evocação do Recife
- das ruas e bairros de Recife, cria um jogo quase surrealista. Na verdade,
para quem não sabe que estes são nomes de bairros, a passagem
é completamente surrealista.
16
Duas ciganas prevêem
o futuro da criança. Enquanto em Pereira da Costa uma delas era
pessimista e a outra otimista, em Morte e Vida Severina a variação
das previsões se dá pelo fato da primeira cigana prognosticar
um futuro enlameado, terminando como pescador de siri e camarão,
e a segunda preconiza-o como operário, mudando-se das margens do
Capibaribe para um mocambo melhor nos mangues do Beberibe, o outro rio
que corta Recife:
Não
o vejo dentro dos mangues,
vejo-o
dentro de uma fábrica:
se está
negro não é lama,
é
graxa de sua máquina,
coisa mais
limpa que a lama
do pescador
de maré
que vemos
aqui, vestido
de lama
da cara ao pé.
E mais:
para que não pensem
que em
sua vida tudo é triste,
vejo coisa
que o trabalho
talvez
até lhe conquiste:
que é
mudar-se destes mangues
daqui do
Capibaribe
para um
mocambo melhor
nos mangues
do Beberibe.
17
A última
cena do Presépio apresenta todos os visitantes do
recém-nascido elogiando, ainda seguindo Pereira da Costa, a beleza
da criança. Trata-se de uma beleza diferente: pálida, franzina,
fraca e magra, mas é beleza que é a afirmação
da vida, o brotar da novidade:
18
Terminado o Presépio, o mestre carpina está pronto para responder
à pergunta de Severino:
--
Severino retirante,
deixe agora
que lhe diga:
eu não
sei bem a resposta
da pergunta
que fazia,
se não
vale mais saltar
fora da
ponte e da vida;
nem conheço
essa resposta,
se quer
mesmo que lhe diga;
é
difícil defender,
só
com palavras, a vida,
ainda mais
quando ela é
esta que
vê, severina;
mas se
responder não pude
à
pergunta que fazia,
ela, a
vida, respondeu
com sua
presença viva.
E não
há melhor resposta
que o espetáculo
da vida:
vê-la
desfiar seu fio,
que também
se chama vida,
ver a fábrica
que ela mesma,
teimosamente,
se fabrica,
vê-la
brotar como há pouco
em nova
vida explodida;
mesmo quando
é assim pequena
a explosão,
como a ocorrida;
mesmo quando
é uma explosão
como a
de há pouco, franzina;
mesmo quando
é a explosão
de uma
vida severina.
Curiosamente,
a peça se encerra sem qualquer resposta de Severino. Em algumas
montagens os encenadores colocaram a última estrofe na boca de Severino
e não, como está claro no texto, na do mestre carpina. Esse
procedimento vem apenas reforçar a mensagem final da peça:
a de que mesmo a vida quase morte severina, aparentemente sem saída
ou esperança, pode e deve ser vivida.