O Autor

     "Os poetas não têm biografia. Sua biografia é sua obra." Essas palavras do diplomata, poeta e crítico mexicano Octavio Paz  ecoam no depoimento pessoal do poeta e diplomata brasileiro João Cabral de Melo Neto: "Eu não tenho biografia. Minha biografia é: em tanto de tanto foi para tal lugar. Em tanto de tanto foi para tal lugar, essa é a biografia que tenho".
     Nascido no dia 9 de janeiro de 1920 em Recife, Pernambuco, de tradicional família de senhores de engenho, João Cabral de Melo Neto passou a primeira infância em engenhos de cana-de-açúcar, entre "curumbas", indivíduos que descem do sertão à procura de trabalho nos engenhos, usinas e estradas, e "romances de barbante", os folhetos de cordel, que tanto o influenciariam, décadas depois, na composição de sua obra mais conhecida, Morte e Vida Severina. No poema "Descoberta da Literatura", integrante do livro A Escola das Facas (1980), João Cabral retoma o ambiente da sua infância:
 

     O menino "semelhante" (embora superior, por ser alfabetizado) aos trabalhadores analfabetos do eito, que é repreendido pela família aristocrática por ler com (e para) os cassacos os folhetos de cordel,  transfere-se aos 10 anos de idade para Recife, onde joga futebol no Santa Cruz Futebol Clube, torna-se um dos poucos fanáticos torcedores do América de Recife, e cursa o primário no Colégio Marista. No livro Agrestes (1985), o poeta ateu - que afirmara em "Antiode" (1947): Poesia, te escrevo / agora: fezes, as / fezes vivas que és. - recorda com acidez o atraso moralista da educação religiosa marista, associando-o à falta de higiene nos banheiros do colégio, no poema "As Latrinas do Colégio Marista do Recife":
   
     A partir dos dezessete anos, João Cabral de Melo Neto emprega-se no serviço público. Ocupa, entre 1937 e 1945, diversos cargos burocráticos em órgãos públicos, inicialmente em Recife e, a partir de 1943, no Rio de Janeiro, então Capital Federal. Data deste período a sua iniciação literária. Conhece, no Recife, Willy Lewin, intelectual que, segundo Cabral, teria tanta importância na sua formação intelectual quanto um curso universitário. Publica, em 1942, seu primeiro livro de poemas, Pedra do Sono, de nítida influência surrealista, mas que já apresentava, como o percebeu o crítico Antonio Candido em resenha da época, um rigor construtivo herdado do cubismo. Conhece, a partir de 1940, no Rio de Janeiro, alguns dos mais importantes poetas brasileiros da geração de 30, como Murilo Mendes, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, a quem já dedicara o seu primeiro livro e  dedicaria o seu livro seguinte, O Engenheiro (1945). Em carta a Drummond, datada de 29 de setembro de 1943, João Cabral expõe seus sentimentos em relação ao serviço burocrático. Este poema, que não trazia título, ficou inédito por 53 anos, até ser publicado recentemente:
   
     Manuscrito em papel timbrado do DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público), órgão da Presidência da República em que trabalhava o poeta pernambucano, o poema deixa clara a influência de Drummond, autor de "A Flor e a Náusea" e também funcionário público, sobre o jovem João Cabral. Além de ter-lhe dedicado seus dois primeiros livros, João Cabral de Melo Neto também publicou, na Revista do Brasil, em 1943, a peça em prosa poética Os Três Mal-Amados, até hoje não encenada, que toma como mote o conhecido poema "Quadrilha", de Drummond.
     O anos de 1945-46  serão decisivos para o poeta e para o homem. Em 1945, sob grande influência do poeta e engenheiro pernambucano Joaquim Cardozo, publica O Engenheiro, livro em que apresenta os princípios da poesia do rigor, da clareza e da objetividade que marcariam toda a sua obra. Passaria, então, a ser conhecido como o "poeta-engenheiro", embora estivesse longe de abraçar tal profissão. Influenciado pelas idéias do arquiteto Le Corbusier, cujas palavras relacionadas à arquitetura, "...machine à émouvoir..." ("máquina de comover"), estampa como epígrafe do livro, e que, como bem o lembrou João Alexandre Barbosa , são correlatas à definição de poesia dada por Paul Valéry como "machine du language" ("máquina da linguagem"),  João Cabral de Melo Neto busca, a partir de então, uma poesia que não deixa de emocionar ou revelar o sonho, mas o faz com o equilíbrio e o rigor matemático e construtivo da engenharia:
   
     É uma poesia que nenhum véu encobre, uma poesia das coisas concretas, do substantivo, que o poeta vai perseguir a partir de agora, tornando-se, assim, o mais rigoroso e exigente dos poetas da nossa literatura.
     No final de 1945, João Cabral é aprovado em concurso para a carreira diplomática. Trabalha no Itamarati durante o ano de 1946, quando se casa com Stella Maria Barbosa de Oliveira e tem o primeiro dos seus cinco filhos, Rodrigo. Começa, a partir de 1947, a perambular pelo mundo, ocupando diversos postos na carreira diplomática.
     De início, serve em Barcelona, onde conhece o pintor Miró, sobre o qual escreve um dos seus raros ensaios críticos e onde monta uma tipografia artesanal, O Livro Inconsútil, através da qual publica, além de vários livros de poetas brasileiros - como Manuel Bandeira - e espanhóis, seus livros Psicologia da composição (1947) e O Cão sem Plumas (1950). O primeiro, segundo João Cabral, um "livro teórico", volta-se inteiramente para a metalinguagem; enquanto o segundo já prenuncia o olhar do poeta que se volta para sua Recife natal, em especial o rio Capibaribe que a corta.
     Em 1950 é removido para Londres, onde fica até 1952, quando é afastado da diplomacia, acusado de subversão e comunismo. Retorna ao Brasil para responder ao processo. Absolvido, permanece no país até 1956. Durante estes anos de "exílio interno", Cabral acrescenta à sua poética um componente novo: a preocupação social. Em poemas mais "comunicativos", mais "fáceis", como O Rio, escrito em 1953 e vencedor do Prêmio do IV Centenário de São Paulo (1954) e Morte e Vida Severina, escrito em 1954/55 e publicado na coletânea Duas Águas, de 1956, João Cabral de Melo Neto apresenta uma poesia mais narrativa, popular e voltada para os problemas sociais do Nordeste, mais especificamente de seu estado natal, Pernambuco.
     Voltando à ativa no exterior a partir de 1956, tem uma carreira diplomática brilhante, servindo como cônsul-geral ou embaixador do Brasil em diversos locais, como Marselha, Genebra, Berna, Dacar, Quito, Honduras, Porto, etc. Aposenta-se em 1990 como embaixador, mesmo ano em que recebe o maior prêmio literário da língua portuguesa, o Prêmio Luís de Camões.
     De todos os países em que João Cabral trabalhou, certamente aquele que deixou influências mais profundas na sua poesia foi a Espanha. Servindo diversas vezes em Barcelona, apaixonou-se pela poesia espanhola e catalã. Mas seria a cidade de Sevilha, na Andaluzia, onde também morou mais de uma vez, que deixaria marcas profundas no poeta recifense. No poema "Autocrítica", de A Escola das Facas (1980), o poeta revela seu débito à cidade espanhola, apontando-a como co-responsável, juntamente com Pernambuco, por sua "inspiração" poética:
   
     Em livros como Dois Parlamentos (1960), Quaderna (1960), Serial (1961),  A Educação pela pedra (1966), Museu de Tudo (1975), A Escola das Facas (1980), Auto do frade (1984), Agrestes (1985), Crime na Calle Relator (1987), Sevilha Andando (1990) e Andando Sevilha (1994), o poeta foi abordando os temas mais diversos, como a própria poesia, a pintura, o futebol, suas memórias, a morte, a memória do Recife na morte de Frei Caneca, suas viagens, a sensualidade das sevilhanas, o sertão, etc. Sempre tendo a feminina e gentil Espanha - Sevilha à frente - e o masculino e árido Pernambuco para dar o tom na poesia rigorosa, consistente e ímpar que o "poeta-engenheiro" vem construindo  da década de 40 até sua morte no dia 9 de outubro de 1999.
 
Joćo Cabral de Melo Neto
 
O Rigor das Coisas
 
 
     A metalinguagem é um dos elementos mais importantes na poética de João Cabral de Melo Neto. Poucos poetas na literatura brasileira preocuparam-se tanto em expor uma teoria da poesia através de sua obra. João Cabral insiste em dizer, em inúmeras entrevistas, que originalmente queria ser crítico literário, mas, julgando-se despreparado para tanto, começou a escrever poesia.
     Já vimos que, a partir de O Engenheiro (1945), Cabral opta por enveredar por um fazer poético estruturado por um rigor quase matemático. Para evitar uma poesia vaga, cuja ambigüidade se possa confundir com falta de clareza, o poeta opta por uma poesia feita primordialmente através da articulação de termos concretos, substantivos ou mesmo adjetivos e verbos "concretos". Sim, porque adjetivos e verbos admitem essa categoria. Por exemplo: o adjetivo sublime é abstrato, como tristeza. Maçã é tão concreto quanto o adjetivo torto. A literatura espanhola usa preponderantemente o concreto, e por isso me interessou. As literaturas primitivas me interessam. Parece que a linguagem começou pelas palavras concretas. O poeta apresenta essa sua teoria da poesia no poema "Falar com coisas", de Agrestes (1985):
       Essa preocupação em evitar a "diarréia" poética aparece também no poema "O Ferrageiro de Carmona" do livro Crime na Calle Relator (1987). Através do relato de uma conversa com um ferrageiro da cidade espanhola de Carmona, João Cabral expõe algumas das principais preocupações de seu fazer poético: a contenção e, acima de tudo, o esforço que a poesia requer:
       Podemos ler o conselho dado pelo ferrageiro ao poeta como uma profissão de fé do próprio João Cabral de Melo Neto. Trabalhar com o ferro forjado é criar e enfrentar dificuldades no fazer artístico. Para João Cabral, o poema deve ser sempre trabalhado com esforço e suor, deve surgir como fruto do trabalho intenso e não de uma inspiração fugaz e enganadora, da facilidade.
     Neste sentido é que o autor de Morte e Vida Severina procura utilizar sempre tanto da métrica -- com maior freqüência o verso octossílabo -- e da rima -- principalmente a rima toante, apenas entre vogais --  para impor a si próprio uma disciplina rigorosa através da dificuldade. Deixemos que o poeta explique esse processo:
       Eu acho que o verso livre já foi longe demais, há uma necessidade de se voltar a uma certa disciplina. (...) Em primeiro lugar, eu procuro escrever com o máximo de consciência, de cerebralismo, o nome que vocês quiserem dar. Muito bem, então eu procuro me criar dificuldades. Você metrificar, sobretudo para um sujeito que não tem ouvido como eu, é uma tarefa bastante difícil. Você, no Brasil, preponderantemente, ou escreve no verso de sete sílabas, que é o verso popular tradicional ibérico, ou então escreve em decassílabos, que é o negócio de Camões. Repare Manuel Bandeira ou Carlos Drummond, todos eles caíam no decassílabo. Vinícius foi um dos poucos que fez a ficção dele de intimidade que não é em decassílabo. De forma que você vê que a partir de Cão sem Plumas, que é um livro que eu escrevi aos trinta anos, praticamente eu não escrevi mais verso livre. O Rio, que aparentemente é verso livre, eu mostro a vocês aqui qual é a metrificação dele. Toda a minha poesia é metrificada. É o negócio que Frost diz: escrever em verso livre é como jogar tênis sem rede. De forma que eu procuro me criar dificuldades. Eu tenho alguns poemas em sete sílabas. Esse é o verso que é fácil para nós. De forma que eu vou usar o verso de oito sílabas, tenho a impressão de que a maioria dos meus versos é escrito em oito sílabas. No Brasil, em geral, quando se usa o verso de oito sílabas, se usa sempre com a cesura na mesma sílaba, de forma que a coisa fica cantante. Se você usar o verso de oito sílabas sem uma obrigação de uma cesura interna, você então dá uma aparência de que está escrevendo em verso livre e ao mesmo tempo você se cria uma dificuldade a vencer, que é uma coisa de que eu preciso. Agora a rima. Eu sou um sujeito estragado pelo que me davam no colégio para ler. Eu acho a rima o troço mais chato do mundo, e o decassílabo um negócio sinistro. De forma que eu procuro escrever um tipo de verso que pareça verso livre, mas que me dá uma grande dificuldade para escrever. Claro, um verso metrificado pelo meu ouvido. Talvez pelo fato de eu não ter ouvido, eu pense que estou escrevendo rigorosamente metrificado e na verdade estou escrevendo em verso livre sem saber. Muitas vezes eu uso a rima toante, e o espanhol, por exemplo, sente imediatamente a rima toante. Eu uso essas duas coisas porque o verso de oito sílabas que eu uso com uma acentuação irregular interna dá a impressão de prosa. E a rima toante, como eu sei que ela não soa no ouvido do brasileiro, dá a impressão de que o poema não é rimado.

     João Cabral se refere, no trecho acima, ao fato de não ter ouvido, ou seja, de apresentar uma inaptidão para a música. Chegou mesmo a afirmar diversas vezes que não gosta de música ou mesmo de ouvir palestras ou leituras de poemas. O fragmento mostra, no entanto, como, através do esforço consciente, procura conferir uma musicalidade sutil e refinada à sua poesia. Essa musicalidade ímpar, tão presente em Morte e Vida Severina, rendeu-lhe de um dos maiores compositores de nossa música popular, Caetano Veloso, na canção Outro Retrato, do disco Estrangeiro (1989), a seguinte homenagem:
 

 
 
As Duas Águas
 
 
     Outra faceta importante da poética de João Cabral de Melo Neto é a divisão que fez para sua obra quando da publicação da coletânea Duas Águas - Poemas Reunidos, em 1956. Este volume reunia todos os poemas de João Cabral até aquele momento. Aos livros Pedra do Sono, O Engenheiro, Psicologia da Composição e O Cão sem Plumas foram adicionados os inéditos Paisagens com Figuras e Uma Faca Só Lâmina para formar a "Primeira Água" do livro. À peça Os Três Mal-Amados e ao monólogo O Rio, foi acrescentado o inédito Morte e Vida Severina, formando, assim a "Segunda Água" do livro.
     O termo "água" se refere às superfícies planas que constituem um telhado; água de telhado: telhado de uma água. E aponta para uma divisão na obra de João Cabral entre uma forma de poesia mais rigorosa, mais cerebral e de público mais intelectualizado e restrito -- a da Primeira Água; e outra forma poética voltada para um auditório mais amplo, uma poesia mais relaxada, mais popular, mais oral e dramática -- a da Segunda Água.
    Dois anos antes, em 1954, João Cabral de Melo Neto havia exposto uma tese no Congresso Internacional de Escritores, em São Paulo, intitulada Da Função Moderna da Poesia, em que aborda exatamente a questão da incomunicabilidade reinante na poesia contemporânea, a dificuldade dos poetas modernos em atingir um público mais amplo para seus textos. Vejamos:
 
      A poesia moderna - captação da realidade objetiva moderna e dos estados de espírito do homem moderno - continuou a ser servida em invólucros perfeitamente anacrônicos e, em geral imprestáveis, nas novas condições que se impuseram.
      Mas todo esse progresso realizado limitou-se aos materiais do poema: essas pesquisas limitaram-se a multiplicar os recursos de que se pode valer um poeta para registrar sua expressão pessoal; limitaram-se àquela primeira metade do ato de escrever, no decorrer da qual o poeta luta por dizer com precisão o que deseja; isto é, tiveram apenas em conta consumar a expressão, sem cuidar da sua contraparte orgânica - a comunicação. (...)
      O caso do rádio é típico. O poeta moderno ficou inteiramente indiferente a esse poderoso meio de difusão. À exceção de um ou outro exemplo de poema escrito para ser irradiado, levando em conta as limitações e explorando as potencialidades do novo meio de comunicação, as relações da poesia moderna com o rádio se limitam à leitura episódica de obras escritas originariamente para serem lidas em livro, com absoluto insucesso, sempre, pelo muito que diverge a palavra transmitida pela audição da palavra transmitida pela visão. (O que acontece com o rádio, ocorre também com o cinema e a televisão e as audiências em geral).
      Mas os poetas não desprezaram apenas os novos meios de comunicação postos a seu dispor pela técnica moderna. Também não souberam adaptar às condições da vida moderna os gêneros capazes de serem aproveitados. Deixaram-nos cair em desuso (a poesia narrativa, por exemplo, ou as aucas catalãs, antepassadas das histórias de quadrinhos), ou deixaram que se degradassem em gêneros não poéticos, a exemplo da anedota moderna, herdeira da fábula. Ou expulsaram-nos da categoria de boa literatura, como aconteceu com as letras das canções populares ou com a poesia satírica.
      No plano dos tipos problemáticos, tudo o que os poetas contemporâneos obtiveram, foi o chamado "poema" moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer espécie de mensagem que o seu autor pretenda enviar. Mas esse tipo de poema não foi obtido através de nenhuma consideração acerca de sua possível função social de comunicação. O poeta contemporâneo chegou a ele passivamente, por inércia, simplesmente por não ter cogitado do assunto. Esse tipo de poema é a própria ausência de construção e organização, é o simples acúmulo de material poético, rico, é verdade, em seu tratamento do verso, da imagem e da palavra, mas atirado desordenadamente numa caixa de depósito.
 
     Duas são, portanto, as saídas para o poeta: fazer um poema moderno que não seja apenas a própria ausência de construção e organização, o simples acúmulo de material poético, e buscar novas formas de comunicação com o público leitor. Buscar, portanto, a comunicação da Segunda Água sem, no entanto, abandonar o rigor construtivo da Primeira. Foi o crítico Benedito Nunes quem melhor sintetizou as relações das Duas Águas cabralinas com sua preocupação com a comunicação:
 
    "É precisamente sob o aspecto de comunicação, problema que tanto preocupa João Cabral, (...), que a diferença entre as "duas águas" pode ser estabelecida. Não é a quantidade de informação nem as qualidades formativas da poesia que estão em jogo na "segunda água", mas o aumento do volume e da área de sua comunicabilidade. Temos assim, em vez de duas espécies de poesias, dois tipos de dicção que se distinguem em função do destinatário e da modalidade de consumo do texto.
     Quanto mais construída for a poesia, mais dependente se torna, como na "primeira água", do mecanismo da linguagem escrita, e a sua comunicação, tendo por base a realidade factual do texto, solicita a leitura silenciosa e múltipla de um receptor individual.
     Quanto menor for o grau de construção, maior será a altura da dicção poética, que se sobrepõe à linguagem escrita, recebendo o texto, nesse caso, que é o da "segunda água", um suprimento de oralidade, que avoluma o seu poder de comunicação e facilita a sua difusão, de modo a alcançar um receptor coletivo e a ser consumido coletivamente."
 
     Em 1966, João Cabral de Melo Neto haveria de reunir os poemas da sua "Segunda Água", acrescidos de outros, na coletânea Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta, reforçando as palavras de Benedito Nunes. Posteriormente, esta coletânea seria acrescida pelo Auto do Frade, poema dramático publicado em 1984.
     A "água" da comunicabilidade com o público deságua no "poema em voz alta" que tende irreversivelmente para a poesia dramática.
     Curioso, e não coincidente, é o fato de que alguns dos maiores poetas do século XX, como T. S. Eliot - em 1935 com a peça Murder in the Cathedral -, Gertrude Stein - em 1934 com a peça/ópera Four Saints in Three Acts -, Federico Garcia Lorca - em 1933 com a peça Bodas de Sangre -, Samuel Beckett - em 1953 com a peça Esperando Godot -, encontraram exatamente na "poesia em voz alta" do teatro o veículo para estabelecer uma maior comunicação com o público, alcançando um sucesso que suas obras poéticas por si só - por melhor que fossem, e eram - jamais conseguiram ou poderiam sonhar obter.
     O mesmo se deu com João Cabral de Melo Neto. Assim como Eliot, Stein, Beckett, Lorca, Genet e tantos outros, João Cabral encontrou no teatro uma ponte através da qual sua poesia pôde estabelecer contato com o público que, sem o suporte da ação dramática, permaneceria distante, intocado. Foi exatamente através de Morte e Vida Severina que o poeta pernambucano encontrou um veículo capaz de superar o abismo que, segundo ele, separa hoje em dia o poeta de seu leitor.
 
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