O
Autor
"Os poetas
não têm biografia. Sua biografia é sua obra." Essas
palavras do diplomata, poeta e crítico mexicano Octavio Paz
ecoam no depoimento pessoal do poeta e diplomata brasileiro João
Cabral de Melo Neto: "Eu não tenho biografia. Minha biografia
é: em tanto de tanto foi para tal lugar. Em tanto de tanto foi para
tal lugar, essa é a biografia que tenho".
Nascido
no dia 9 de janeiro de 1920 em Recife, Pernambuco, de tradicional família
de senhores de engenho, João Cabral de Melo Neto passou a primeira
infância em engenhos de cana-de-açúcar, entre "curumbas",
indivíduos que descem do sertão à procura de trabalho
nos engenhos, usinas e estradas, e "romances de barbante", os folhetos
de cordel, que tanto o influenciariam, décadas depois, na composição
de sua obra mais conhecida, Morte e Vida Severina. No poema "Descoberta
da Literatura", integrante do livro A Escola das Facas (1980), João
Cabral retoma o ambiente da sua infância:
No dia-a-dia
do engenho,
toda a
semana, durante,
cochichavam-me
em segredo:
saiu um
novo romance.
E da feira
do domingo
me traziam
conspirantes
para que
os lesse e explicasse
um romance
de barbante.
Sentados
na roda morta
de um carro
de boi, sem jante,
ouviam
o folheto guenzo ,
a seu leitor
semelhante,
com as
peripécias de espanto
preditas
pelos feirantes.
Embora
as coisas contadas
e todo
o mirabolante,
em nada
ou pouco variassem
nos crimes,
no amor, nos lances,
e soassem
como sabidas
de outros
folhetos migrantes,
a tensão
era tão densa,
subia tão
alarmante,
que o leitor
que lia aquilo
como puro
alto-falante,
e, sem
querer, imantara
todos ali,
circunstantes,
receava
que confundissem
o de perto
com o distante,
o ali com
o espaço mágico,
seu franzino
com o gigante,
e que o
acabassem tomando
pelo autor
imaginante
ou tivesse
que afrontar
as brabezas
do brigante.
(E acabaria,
não fossem
contar
tudo à Casa-grande:
na moita
morta do engenho,
um filho-engenho,
perante
cassacos
do eito e de tudo,
se estava
dando ao desplante
de ler
letra analfabeta
de curumba,
no caçanje
próprio
dos cegos de feira,
muitas
vezes meliantes. )
O menino "semelhante"
(embora superior, por ser alfabetizado) aos trabalhadores analfabetos do
eito, que é repreendido pela família aristocrática
por ler com (e para) os cassacos os folhetos de cordel, transfere-se
aos 10 anos de idade para Recife, onde joga futebol no Santa Cruz Futebol
Clube, torna-se um dos poucos fanáticos torcedores do América
de Recife, e cursa o primário no Colégio Marista. No livro
Agrestes (1985), o poeta ateu - que afirmara em "Antiode" (1947):
Poesia, te escrevo / agora: fezes, as / fezes vivas que és. - recorda
com acidez o atraso moralista da educação religiosa marista,
associando-o à falta de higiene nos banheiros do colégio,
no poema "As Latrinas do Colégio Marista do Recife":
Nos Colégios
Marista (Recife),
se a ciência
parou na Escolástica,
a malvada
estrutura da carne
era ensinada
em todas as aulas,
com os vários
creosotos morais
com que
lavar gestos, olhos, língua;
à
alma davam a água sanitária
que nunca
usavam nas latrinas.
Lavar, na
teologia marista,
é
coisa da alma, o corpo é do diabo;
a castidade
dispensa a higiene
do corpo,
e de onde ir defecá-lo.
A partir
dos dezessete anos, João Cabral de Melo Neto emprega-se no serviço
público. Ocupa, entre 1937 e 1945, diversos cargos burocráticos
em órgãos públicos, inicialmente em Recife e, a partir
de 1943, no Rio de Janeiro, então Capital Federal. Data deste período
a sua iniciação literária. Conhece, no Recife, Willy
Lewin, intelectual que, segundo Cabral, teria tanta importância na
sua formação intelectual quanto um curso universitário.
Publica, em 1942, seu primeiro livro de poemas, Pedra do Sono, de
nítida influência surrealista, mas que já apresentava,
como o percebeu o crítico Antonio Candido em resenha da época,
um rigor construtivo herdado do cubismo. Conhece, a partir de 1940, no
Rio de Janeiro, alguns dos mais importantes poetas brasileiros da geração
de 30, como Murilo Mendes, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes e Carlos Drummond
de Andrade, a quem já dedicara o seu primeiro livro e dedicaria
o seu livro seguinte, O Engenheiro (1945). Em carta a Drummond, datada
de 29 de setembro de 1943, João Cabral expõe seus sentimentos
em relação ao serviço burocrático. Este poema,
que não trazia título, ficou inédito por 53 anos,
até ser publicado recentemente:
Difícil
ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono,
Carlos,
Pedindo
conselho.
Não
é lá fora o dia
Que me
deixa assim,
Cinemas,
avenidas
E outros
não-fazeres.
É
a dor das coisas,
O luto
desta mesa;
É
o regimento proibindo
Assovios,
versos, flores.
Eu nunca
suspeitara
Tanta roupa
preta;
Tão
pouco essas palavras
Funcionárias,
sem amor.
Carlos,
há uma máquina
Que nunca
escreve cartas;
Há
uma garrafa de tinta
Que nunca
bebeu álcool.
E os arquivos,
Carlos,
As caixas
de papéis:
Túmulos
para todos
Os tamanhos
de meu corpo.
Não
me sinto correto
De gravata
de cor,
E na cabeça
uma moça
Em forma
de lembrança.
Não
encontro a palavra
Que diga
a esses móveis,
Se os pudesse
encarar...
Fazer seu
nojo meu...
Carlos,
dessa náusea
Como colher
a flor?
Eu te telefono,
Carlos,
Pedindo
conselho.
Manuscrito
em papel timbrado do DASP (Departamento Administrativo do Serviço
Público), órgão da Presidência da República
em que trabalhava o poeta pernambucano, o poema deixa clara a influência
de Drummond, autor de "A Flor e a Náusea" e também funcionário
público, sobre o jovem João Cabral. Além de ter-lhe
dedicado seus dois primeiros livros, João Cabral de Melo Neto também
publicou, na Revista do Brasil, em 1943, a peça em prosa poética
Os Três Mal-Amados, até hoje não encenada, que
toma como mote o conhecido poema "Quadrilha", de Drummond.
O anos
de 1945-46 serão decisivos para o poeta e para o homem. Em
1945, sob grande influência do poeta e engenheiro pernambucano Joaquim
Cardozo, publica O Engenheiro, livro em que apresenta os princípios
da poesia do rigor, da clareza e da objetividade que marcariam toda a sua
obra. Passaria, então, a ser conhecido como o "poeta-engenheiro",
embora estivesse longe de abraçar tal profissão. Influenciado
pelas idéias do arquiteto Le Corbusier, cujas palavras relacionadas
à arquitetura, "...machine à émouvoir..." ("máquina
de comover"), estampa como epígrafe do livro, e que, como bem o
lembrou João Alexandre Barbosa , são correlatas à
definição de poesia dada por Paul Valéry como "machine
du language" ("máquina da linguagem"), João Cabral
de Melo Neto busca, a partir de então, uma poesia que não
deixa de emocionar ou revelar o sonho, mas o faz com o equilíbrio
e o rigor matemático e construtivo da engenharia:
A luz,
o sol, o ar livre
envolvem
o sonho do engenheiro.
O engenheiro
sonha coisas claras:
superfícies,
tênis, um copo de água.
O lápis,
o esquadro, o papel;
o desenho,
o projeto, o número:
o engenheiro
pensa o mundo justo,
mundo que
nenhum véu encobre.
É
uma poesia que nenhum véu encobre, uma poesia das coisas concretas,
do substantivo, que o poeta vai perseguir a partir de agora, tornando-se,
assim, o mais rigoroso e exigente dos poetas da nossa literatura.
No final
de 1945, João Cabral é aprovado em concurso para a carreira
diplomática. Trabalha no Itamarati durante o ano de 1946, quando
se casa com Stella Maria Barbosa de Oliveira e tem o primeiro dos seus
cinco filhos, Rodrigo. Começa, a partir de 1947, a perambular pelo
mundo, ocupando diversos postos na carreira diplomática.
De início,
serve em Barcelona, onde conhece o pintor Miró, sobre o qual escreve
um dos seus raros ensaios críticos e onde monta uma tipografia artesanal,
O Livro Inconsútil, através da qual publica,
além de vários livros de poetas brasileiros - como Manuel
Bandeira - e espanhóis, seus livros Psicologia da composição
(1947) e O Cão sem Plumas (1950). O primeiro, segundo João
Cabral, um "livro teórico", volta-se inteiramente para a metalinguagem;
enquanto o segundo já prenuncia o olhar do poeta que se volta para
sua Recife natal, em especial o rio Capibaribe que a corta.
Em 1950
é removido para Londres, onde fica até 1952, quando é
afastado da diplomacia, acusado de subversão e comunismo. Retorna
ao Brasil para responder ao processo. Absolvido, permanece no país
até 1956. Durante estes anos de "exílio interno", Cabral
acrescenta à sua poética um componente novo: a preocupação
social. Em poemas mais "comunicativos", mais "fáceis", como O
Rio, escrito em 1953 e vencedor do Prêmio do IV Centenário
de São Paulo (1954) e Morte e Vida Severina, escrito em 1954/55
e publicado na coletânea Duas Águas, de 1956, João
Cabral de Melo Neto apresenta uma poesia mais narrativa, popular e voltada
para os problemas sociais do Nordeste, mais especificamente de seu estado
natal, Pernambuco.
Voltando
à ativa no exterior a partir de 1956, tem uma carreira diplomática
brilhante, servindo como cônsul-geral ou embaixador do Brasil em
diversos locais, como Marselha, Genebra, Berna, Dacar, Quito, Honduras,
Porto, etc. Aposenta-se em 1990 como embaixador, mesmo ano em que recebe
o maior prêmio literário da língua portuguesa, o Prêmio
Luís de Camões.
De todos
os países em que João Cabral trabalhou, certamente aquele
que deixou influências mais profundas na sua poesia foi a Espanha.
Servindo diversas vezes em Barcelona, apaixonou-se pela poesia espanhola
e catalã. Mas seria a cidade de Sevilha, na Andaluzia, onde também
morou mais de uma vez, que deixaria marcas profundas no poeta recifense.
No poema "Autocrítica", de A Escola das Facas (1980), o poeta
revela seu débito à cidade espanhola, apontando-a como co-responsável,
juntamente com Pernambuco, por sua "inspiração" poética:
Só
duas coisas conseguiram
(des)feri-lo
até a poesia:
o Pernambuco
de onde veio
e o aonde
foi, a Andaluzia.
Um, o vacinou
do falar rico
e deu-lhe
a outra, fêmea e viva,
desafio
demente: em verso
dar a ver
Sertão e Sevilha.
Em livros
como Dois Parlamentos (1960), Quaderna (1960), Serial
(1961), A Educação pela pedra (1966), Museu
de Tudo (1975), A Escola das Facas (1980), Auto do frade
(1984), Agrestes (1985), Crime na Calle Relator (1987),
Sevilha Andando (1990) e Andando Sevilha (1994), o poeta
foi abordando os temas mais diversos, como a própria poesia, a pintura,
o futebol, suas memórias, a morte, a memória do Recife na
morte de Frei Caneca, suas viagens, a sensualidade das sevilhanas, o sertão,
etc. Sempre tendo a feminina e gentil Espanha - Sevilha à frente
- e o masculino e árido Pernambuco para dar o tom na poesia rigorosa,
consistente e ímpar que o "poeta-engenheiro" vem construindo
da década de 40 até sua morte no dia 9 de outubro de 1999.
O
Rigor das Coisas
A metalinguagem
é um dos elementos mais importantes na poética de João
Cabral de Melo Neto. Poucos poetas na literatura brasileira preocuparam-se
tanto em expor uma teoria da poesia através de sua obra. João
Cabral insiste em dizer, em inúmeras entrevistas, que originalmente
queria ser crítico literário, mas, julgando-se despreparado
para tanto, começou a escrever poesia.
Já
vimos que, a partir de O Engenheiro (1945), Cabral opta por enveredar
por um fazer poético estruturado por um rigor quase matemático.
Para evitar uma poesia vaga, cuja ambigüidade se possa confundir com
falta de clareza, o poeta opta por uma poesia feita primordialmente através
da articulação de termos concretos, substantivos ou mesmo
adjetivos e verbos "concretos". Sim, porque adjetivos e verbos admitem
essa categoria. Por exemplo: o adjetivo sublime é abstrato, como
tristeza. Maçã é tão concreto quanto o adjetivo
torto. A literatura espanhola usa preponderantemente o concreto, e por
isso me interessou. As literaturas primitivas me interessam. Parece que
a linguagem começou pelas palavras concretas. O poeta apresenta
essa sua teoria da poesia no poema "Falar com coisas", de Agrestes (1985):
As coisas,
por detrás de nós,
exigem:
falemos com elas,
mesmo quando
nosso discurso
não
consiga ser falar delas.
Dizem:
falar sem coisas é
comprar
o que seja sem moeda:
é
sem fundos, falar com cheques,
em líquida,
informe diarréia.
Essa preocupação
em evitar a "diarréia" poética aparece também no poema
"O Ferrageiro de Carmona" do livro Crime na Calle Relator (1987).
Através do relato de uma conversa com um ferrageiro da cidade espanhola
de Carmona, João Cabral expõe algumas das principais preocupações
de seu fazer poético: a contenção e, acima de tudo,
o esforço que a poesia requer:
Um ferrageiro
de Carmona
que me
informava de um balcão:
"Aquilo?
É ferro fundido,
foi a fôrma
que fez, não a mão.
Só
trabalho com ferro forjado
que é
quando se trabalha ferro;
então,
corpo a corpo com ele,
domo-o,
dobro-o, até o onde quero.
O ferro
fundido é sem luta,
é
só derramá-lo na fôrma.
Não
há nele a queda-de-braço
e o cara-a-cara
de uma forja.
Existe grande
diferença
do ferro
forjado ao fundido;
é
uma distância tão enorme
que não
pode medir-se a gritos.
Conhece
a Giralda em Sevilha?
De certo
subiu lá em cima.
Reparou
nas flores de ferro
dos quatro
jarros das esquinas?
Pois aquilo
é ferro forjado.
Flores
criadas em outra língua.
Nada têm
das flores de fôrma
moldadas
pelas das campinas.
Dou-lhe
aqui humilde receita,
ao senhor
que dizem ser poeta:
o ferro
não deve fundir-se
nem deve
a voz ter diarréia.
Forjar:
domar o ferro à força,
não
até uma flor já sabida,
mas ao
que parece ser flor
se flor
parece a quem o diga."
Podemos ler
o conselho dado pelo ferrageiro ao poeta como uma profissão de fé
do próprio João Cabral de Melo Neto. Trabalhar com o ferro
forjado é criar e enfrentar dificuldades no fazer artístico.
Para João Cabral, o poema deve ser sempre trabalhado com esforço
e suor, deve surgir como fruto do trabalho intenso e não de uma
inspiração fugaz e enganadora, da facilidade.
Neste sentido
é que o autor de Morte e Vida Severina procura utilizar sempre
tanto da métrica -- com maior freqüência o verso octossílabo
-- e da rima -- principalmente a rima toante, apenas entre vogais --
para impor a si próprio uma disciplina rigorosa através da
dificuldade. Deixemos que o poeta explique esse processo:
Eu acho que o verso livre já foi longe
demais, há uma necessidade de se voltar a uma certa disciplina.
(...) Em primeiro lugar, eu procuro escrever com o máximo de consciência,
de cerebralismo, o nome que vocês quiserem dar. Muito bem, então
eu procuro me criar dificuldades. Você metrificar, sobretudo para
um sujeito que não tem ouvido como eu, é uma tarefa bastante
difícil. Você, no Brasil, preponderantemente, ou escreve no
verso de sete sílabas, que é o verso popular tradicional
ibérico, ou então escreve em decassílabos, que é
o negócio de Camões. Repare Manuel Bandeira ou Carlos Drummond,
todos eles caíam no decassílabo. Vinícius foi um dos
poucos que fez a ficção dele de intimidade que não
é em decassílabo. De forma que você vê que a
partir de Cão sem Plumas, que é um livro que eu escrevi
aos trinta anos, praticamente eu não escrevi mais verso livre. O
Rio, que aparentemente é verso livre, eu mostro a vocês
aqui qual é a metrificação dele. Toda a minha poesia
é metrificada. É o negócio que Frost diz: escrever
em verso livre é como jogar tênis sem rede. De forma que eu
procuro me criar dificuldades. Eu tenho alguns poemas em sete sílabas.
Esse é o verso que é fácil para nós. De forma
que eu vou usar o verso de oito sílabas, tenho a impressão
de que a maioria dos meus versos é escrito em oito sílabas.
No Brasil, em geral, quando se usa o verso de oito sílabas, se usa
sempre com a cesura na mesma sílaba, de forma que a coisa fica cantante.
Se você usar o verso de oito sílabas sem uma obrigação
de uma cesura interna, você então dá uma aparência
de que está escrevendo em verso livre e ao mesmo tempo você
se cria uma dificuldade a vencer, que é uma coisa de que eu preciso.
Agora a rima. Eu sou um sujeito estragado pelo que me davam no colégio
para ler. Eu acho a rima o troço mais chato do mundo, e o decassílabo
um negócio sinistro. De forma que eu procuro escrever um tipo de
verso que pareça verso livre, mas que me dá uma grande dificuldade
para escrever. Claro, um verso metrificado pelo meu ouvido. Talvez pelo
fato de eu não ter ouvido, eu pense que estou escrevendo rigorosamente
metrificado e na verdade estou escrevendo em verso livre sem saber. Muitas
vezes eu uso a rima toante, e o espanhol, por exemplo, sente imediatamente
a rima toante. Eu uso essas duas coisas porque o verso de oito sílabas
que eu uso com uma acentuação irregular interna dá
a impressão de prosa. E a rima toante, como eu sei que ela não
soa no ouvido do brasileiro, dá a impressão de que o poema
não é rimado.
João
Cabral se refere, no trecho acima, ao fato de não ter ouvido, ou
seja, de apresentar uma inaptidão para a música. Chegou mesmo
a afirmar diversas vezes que não gosta de música ou mesmo
de ouvir palestras ou leituras de poemas. O fragmento mostra, no entanto,
como, através do esforço consciente, procura conferir uma
musicalidade sutil e refinada à sua poesia. Essa musicalidade ímpar,
tão presente em Morte e Vida Severina, rendeu-lhe de um dos
maiores compositores de nossa música popular, Caetano Veloso, na
canção Outro Retrato, do disco Estrangeiro (1989),
a seguinte homenagem:
Minha música
vem da música da poesia de um poeta João
que não
gosta de música.
As
Duas Águas
Outra faceta
importante da poética de João Cabral de Melo Neto é
a divisão que fez para sua obra quando da publicação
da coletânea Duas Águas - Poemas Reunidos, em 1956.
Este volume reunia todos os poemas de João Cabral até aquele
momento. Aos livros Pedra do Sono, O Engenheiro, Psicologia
da Composição e O Cão sem Plumas foram
adicionados os inéditos Paisagens com Figuras e Uma Faca
Só Lâmina para formar a "Primeira Água"
do livro. À peça Os Três Mal-Amados e ao monólogo
O Rio, foi acrescentado o inédito Morte e Vida Severina,
formando, assim a "Segunda Água" do livro.
O termo
"água" se refere às superfícies planas que
constituem um telhado; água de telhado: telhado de uma água.
E aponta para uma divisão na obra de João Cabral entre uma
forma de poesia mais rigorosa, mais cerebral e de público mais intelectualizado
e restrito -- a da Primeira Água; e outra forma poética voltada
para um auditório mais amplo, uma poesia mais relaxada, mais popular,
mais oral e dramática -- a da Segunda Água.
Dois anos antes,
em 1954, João Cabral de Melo Neto havia exposto uma tese no Congresso
Internacional de Escritores, em São Paulo, intitulada Da
Função Moderna da Poesia, em que aborda exatamente
a questão da incomunicabilidade reinante na poesia contemporânea,
a dificuldade dos poetas modernos em atingir um público mais amplo
para seus textos. Vejamos:
A poesia moderna - captação da realidade objetiva moderna
e dos estados de espírito do homem moderno - continuou a ser servida
em invólucros perfeitamente anacrônicos e, em geral imprestáveis,
nas novas condições que se impuseram.
Mas todo esse progresso realizado limitou-se aos materiais do poema: essas
pesquisas limitaram-se a multiplicar os recursos de que se pode valer um
poeta para registrar sua expressão pessoal; limitaram-se àquela
primeira metade do ato de escrever, no decorrer da qual o poeta luta por
dizer com precisão o que deseja; isto é, tiveram apenas em
conta consumar a expressão, sem cuidar da sua contraparte orgânica
- a comunicação. (...)
O caso do rádio é típico. O poeta moderno ficou inteiramente
indiferente a esse poderoso meio de difusão. À exceção
de um ou outro exemplo de poema escrito para ser irradiado, levando em
conta as limitações e explorando as potencialidades do novo
meio de comunicação, as relações da poesia
moderna com o rádio se limitam à leitura episódica
de obras escritas originariamente para serem lidas em livro, com absoluto
insucesso, sempre, pelo muito que diverge a palavra transmitida pela audição
da palavra transmitida pela visão. (O que acontece com o rádio,
ocorre também com o cinema e a televisão e as audiências
em geral).
Mas os poetas não desprezaram apenas os novos meios de comunicação
postos a seu dispor pela técnica moderna. Também não
souberam adaptar às condições da vida moderna os gêneros
capazes de serem aproveitados. Deixaram-nos cair em desuso (a poesia narrativa,
por exemplo, ou as aucas catalãs, antepassadas das histórias
de quadrinhos), ou deixaram que se degradassem em gêneros não
poéticos, a exemplo da anedota moderna, herdeira da fábula.
Ou expulsaram-nos da categoria de boa literatura, como aconteceu com as
letras das canções populares ou com a poesia satírica.
No plano dos tipos problemáticos, tudo o que os poetas contemporâneos
obtiveram, foi o chamado "poema" moderno, esse híbrido de monólogo
interior e de discurso de praça, de diário íntimo
e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica
filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento
melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente
para qualquer espécie de mensagem que o seu autor pretenda enviar.
Mas esse tipo de poema não foi obtido através de nenhuma
consideração acerca de sua possível função
social de comunicação. O poeta contemporâneo chegou
a ele passivamente, por inércia, simplesmente por não ter
cogitado do assunto. Esse tipo de poema é a própria ausência
de construção e organização, é o simples
acúmulo de material poético, rico, é verdade, em seu
tratamento do verso, da imagem e da palavra, mas atirado desordenadamente
numa caixa de depósito.
Duas são,
portanto, as saídas para o poeta: fazer um poema moderno que não
seja apenas a própria ausência de construção
e organização, o simples acúmulo de material poético,
e buscar novas formas de comunicação com o público
leitor. Buscar, portanto, a comunicação da Segunda Água
sem, no entanto, abandonar o rigor construtivo da Primeira. Foi
o crítico Benedito Nunes quem melhor sintetizou as relações
das Duas Águas cabralinas com sua preocupação
com a comunicação:
"É precisamente sob o aspecto de comunicação, problema
que tanto preocupa João Cabral, (...), que a diferença entre
as "duas águas" pode ser estabelecida. Não é a quantidade
de informação nem as qualidades formativas da poesia que
estão em jogo na "segunda água", mas o aumento do volume
e da área de sua comunicabilidade. Temos assim, em vez de duas espécies
de poesias, dois tipos de dicção que se distinguem em função
do destinatário e da modalidade de consumo do texto.
Quanto mais construída for a poesia, mais dependente se torna, como
na "primeira água", do mecanismo da linguagem escrita, e a sua comunicação,
tendo por base a realidade factual do texto, solicita a leitura silenciosa
e múltipla de um receptor individual.
Quanto menor for o grau de construção, maior será
a altura da dicção poética, que se sobrepõe
à linguagem escrita, recebendo o texto, nesse caso, que é
o da "segunda água", um suprimento de oralidade, que avoluma o seu
poder de comunicação e facilita a sua difusão, de
modo a alcançar um receptor coletivo e a ser consumido coletivamente."
Em 1966,
João Cabral de Melo Neto haveria de reunir os poemas da sua "Segunda
Água", acrescidos de outros, na coletânea Morte e Vida
Severina e Outros Poemas em Voz Alta, reforçando as palavras
de Benedito Nunes. Posteriormente, esta coletânea seria acrescida
pelo Auto do Frade, poema dramático publicado em 1984.
A "água"
da comunicabilidade com o público deságua no "poema em voz
alta" que tende irreversivelmente para a poesia dramática.
Curioso,
e não coincidente, é o fato de que alguns dos maiores poetas
do século XX, como T. S. Eliot - em 1935 com a peça Murder
in the Cathedral -, Gertrude Stein - em 1934 com a peça/ópera
Four Saints in Three Acts -, Federico Garcia Lorca - em 1933 com
a peça Bodas de Sangre -, Samuel Beckett - em 1953 com a
peça Esperando Godot -, encontraram exatamente na "poesia
em voz alta" do teatro o veículo para estabelecer uma maior comunicação
com o público, alcançando um sucesso que suas obras poéticas
por si só - por melhor que fossem, e eram - jamais conseguiram ou
poderiam sonhar obter.
O mesmo
se deu com João Cabral de Melo Neto. Assim como Eliot, Stein, Beckett,
Lorca, Genet e tantos outros, João Cabral encontrou no teatro uma
ponte através da qual sua poesia pôde estabelecer contato
com o público que, sem o suporte da ação dramática,
permaneceria distante, intocado. Foi exatamente através de Morte
e Vida Severina que o poeta pernambucano encontrou um veículo
capaz de superar o abismo que, segundo ele, separa hoje em dia o poeta
de seu leitor.