O pernambucano, radicado em São Paulo,
Frederico Barbosa lança, após saudável jejum, o livro
de poemas "Contracorrente''. Da concepção gráfica
à tessitura do texto, um poeta que transgride o banal
Um
livro de poemas é sempre um ato silencioso, penso eu, ou deveria
ser. Uma delicadeza entranhada neste mundo ruim, tenso, conflituoso e disfarçado
em sublimações de fé e crença para viver-se
melhor. Um poema traz sentidos de existência que beiram pequenos
minutos, segundos que sejam, de um desligar os ruídos, entremear
a alma.
Falo isso por causa de um livro
que me chega, e me fez pensar muito e tanto sobre diversas coisas a partir
dele. Falo do último livro de Frederico Barbosa, pernambucano radicado
em São Paulo, professor de literatura, Contracorrente,
editora Iluminuras. Frederico é autor de Rarefato,
1990 (Iluminuras), e Nada Feito Nada, 1993 (Perspectiva).
E lembro de quando li e escrevi sobre estes livros, o quanto de surpresa
para bom eles me trouxeram. O que há neles de um sentido de porrada,
esta palavra mesmo, na boca do estômago. Uma poesia que, entre construção
e seriedade, tem um caráter visceral impressionante. Principalmente
em Rarefato, o primeiro e, a meu ver, ainda o seu melhor
livro.
Frederico esteve por um bom
tempo sem escrever, o que quase sempre é virtude diante de tanta
poluição poética, e sete anos sem publicar livro,
o que é melhor ainda: poeta que se preza não profissionaliza
a poesia. E Contracorrente veio para imprimir risco, em vários
sentidos. O primeiro deles o desenho de um projeto gráfico que diz
bem o teor dos poemas, barulhos, ao mesmo tempo que traz uma apresentação
de Antônio Cândido. O tipo das letras em caixa alta, apertadas
entre si, com um preto que salta aos olhos e nos deixa em alerta para o
que será lido. E uma epígrafe de Paul Valéry: ``Tenho
o instinto de não escrever - e portanto de não pensar, de
não apanhar quando vêm ao pensamento - as coisas de uma vez.
No que sou anti-poeta por caráter, por recusa''.
Depois, os poemas.
Dividido em quatro partes - Por recusa, Trocados da sorte, Encontros diversos,
Na passagem - o livro enviesa poemas bastante diferentes da primeira poética
de Frederico em seus dois primeiros livros. Na orelha, escrita pelo próprio
autor, diz sentir falta de uma poesia menos ``certinha'', menos ``bem feitinha''
dentro da perspectiva contemporânea da poesia brasileira, algo ``mais
pungente''. Assume seu legado da Poesia Concreta e do rigor poético
de João Cabral e quer ir contra a corrente da ``facilidade falastrona''
nesta mesma poesia brasileira. E este é tom dos poemas: ``A carne
forçada/ sob a calça jeans/ quase explode/ querendo sair//
O tecido vibra/ fibra a fibra/ trêmula grade/ implodido jardim/ Enquanto
a carne/ flora pura/ implora em si''.
O que de fato ainda me deixa
ensimesmado - e sei que essa não é a questão do livro
de Frederico - é até quando a discussão na poesia
brasileira vai ser estar a favor ou contra a Poesia Concreta? Até
quando o caráter de instigação das ditas vanguardas
(também o de estar contra ou a favor) vai ser o norte das novas
gerações? Parece-me que a produção atual não
corresponde aos interregnos de questões para que serene-se um pouco
o lugar de Augusto e Haroldo de Campos que, sem dúvida alguma, foram
tão importantes que até hoje tem gente que não perde
a oportunidade de dizer que eles não fizeram nada, não são
nada etc etc. Acho que a discussão da poesia brasileira não
deveria ser mais essa, mas os para frente que podemos apontar nas questões
de linguagem e projeto poéticos, sem descartar os princípios
da tradição. O fato também é que, em sua maioria,
temos poetas iletrados, ah temos, ou apressadinhos demais).
Bom, Frederico
estabelece de fato um sentido outro ao que se tem visto, assume
de cara suas doses na tradição, mas ao mesmo tempo, a meu
ver, não registra a força definidora de seus dois primeiros
livros. Contracorrente é, no mínimo, um livro
estranho, e ainda não saberia dizer qual o caráter deste
estranhamento. Há nele poemas que me interessam muito como possibilidade
e rigorosa pesquisa de linguagem (característica fundante na poesia
de Frederico), mas há outros em que não percebo esta mesma
força. Poemas como Menina Lendo: "No sofá da sala/ gato T.S./
sobre as pernas/ ela lê'', que, a meu ver, é um dos mais fortes
do livro, me remete ao sentido de que o caráter de porrada que um
poema tenha não está no tema que ele trata, apenas, mas na
sua construção com a linguagem e com o domínio disso.
Daí, fico com os poemas que tratam de fato desta luva de pelica
na quietude, caso deste, e mais ainda, dos elaborados para entender os
rumos de uma São Paulo infestada pela doença urbana.
E entendo claramente a necessidade
urgente de Frederico Barbosa em dinamitar a si próprio, e aos que
entregam-se copiosamente a repetir e repetir em poesia neste país,
para poder ver novamente o onde e o quando se pode pensar poesia, ainda,
como vida, motor. Ao mesmo tempo que vejo como desnecessidade o posfácio
de Antônio Risério, agressivo e pessoalmente magoado, trocadilhos
com nomes de pessoas. Acho que, perceber o tempo do outro neste mundo extemporâneo
é perceber com delicadeza, sem perder critério. Por isso
mesmo fico com os poemas que, sozinhos, cumprem função, como
diz o próprio Frederico: "Por isso mesmo/ sou poeta por preguiça''.
E isto é muito melhor.
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