LIRA DOS VINTE ANOS   Álvares de Azevedo
                        Estudo da obra por
                   Frederico Barbosa
 
  
 
 Manuel Antônio Álvares de Azevedo

 
A morte e o mito

         O domingo, 25 de abril de 1852, se iniciara sombrio na casa do Dr. Inácio Manuel Álvares de Azevedo, no Rio de Janeiro. Seu filho Manuel Antônio, o Maneco, pedira à mãe, D. Maria Luísa, que mandasse celebrar uma missa em seu quarto de doente. Sentia que, depois de mais de 40 dias prostrado no leito, vítima de uma série de males, que se manifestaram violentamente após uma queda de cavalo, chegara a hora da morte - que tanto cantara em seus versos de adolescente, apaixonado pelos delírios macabros de Byron e Musset.
         Após se confessar ao padre arrumado às pressas, pediu à mãe, grávida de seu oitavo irmão, que se retirasse  do quarto, pois precisava descansar. Por volta das 4 horas da tarde, com o auxílio do irmão Quinquim - quatro anos mais moço - ergueu-se um pouco do leito,  beijou a mão de seu pai e, a custo, exclamou:
         -- Que fatalidade, meu pai!
         Tentou ainda dizer algumas palavras, mas a boca já se contraía  e o corpo jazia imóvel nos braços do irmão.
         -- Maneco! Maneco!... Gritavam Quinquim e o Dr. Inácio Manuel.
         Do quarto ao lado, D. Maria Luísa, ouvindo e entendendo, soltou um grito desesperado e desfaleceu.
         No enterro, discursou o parente Joaquim Manuel de Macedo, médico, professor e já um dos mais importantes e populares romancistas do Brasil, autor de A Moreninha (1844). Entre outros elogios, afirmava que “Deus tinha acendido na alma do mancebo aquele fogo sagrado da poesia, que eleva o homem acima da terra e faz correr de seus lábios, em cânticos sonoros, a linguagem do inspirado”.
         No dia 27 de abril, o Correio Mercantil, jornal onde então trabalhava Manuel Antônio de Almeida, publicou, na primeira página, uma nota em que se lia: “Nesse jovem perdeu o Brasil um de seus mais esperançosos filhos, um coração patriótico e dedicado, um poeta cujos vôos deviam elevar-se a grandes alturas, um advogado que prometia em breve conhecer todos os arcanos da ciências jurídicas, pois que ainda no fervor dos anos já lhe eram igualmente familiares os poetas e literatos da Itália, da Alemanha, da França e da Inglaterra, assim como os escritos dos mais abalizados jurisconsultos e publicistas.”
         Quase um mês depois, a 22 de maio, em São Paulo, a sociedade acadêmica a que Maneco pertencia, o Ensaio Filosófico Paulistano, realizava uma sessão fúnebre em sua homenagem, presidida por Amaral Gurgel. Nos vários discursos e poemas apresentados, “gênio” é a palavra mais usada para caracterizá-lo.
         Ao morrer, Manuel Antônio Álvares de Azevedo havia publicado apenas alguns poemas e discursos em revistas acadêmicas de circulação restrita aos estudantes de Direito de São Paulo. Já era, no entanto, considerado, por aqueles que o conheciam, uma grande esperança poética e intelectual.
         A sua morte, antes que chegasse a completar o vigésimo primeiro aniversário, privou-nos, nas palavras de José Veríssimo, “daquele que seria talvez o máximo poeta brasileiro”. Seria... Talvez... O certo é que a morte jovem criou, como sempre, um mito.  O mito do gênio doente e mórbido, que previra a própria morte em “Se Eu Morresse Amanhã”:

   

 
Vida breve: vida louca?

         “Nada que é tudo”, todo mito é enigmático. A tão curta vida de Álvares de Azevedo é fonte de inúmeras polêmicas entre seus biógrafos. Discute-se desde o local onde teria nascido até a causa médica de sua morte. Principalmente polemiza-se em torno da sua conduta quando estudante em São Paulo. Libertino devasso ou estudante recatado? Vamos aos fatos que parecem certos.
         Sabe-se que o autor da Lira dos Vinte Anos nasceu no dia 12 de setembro de 1831, em São Paulo, onde seu pai era ainda quintanista da Faculdade de Direito. Tudo indica que teria nascido na biblioteca da casa do avô, embora haja uma lenda de que o parto teria ocorrido na biblioteca da própria Faculdade de Direito. De qualquer modo, Álvares de Azevedo teria nascido como, de resto, passaria toda a vida: entre livros.
        Formado, seu pai se transfere para a capital, o Rio de Janeiro, iniciando logo brilhante carreira jurídica. Aos quatro anos de idade, Maneco depara-se, pela primeira vez, com a morte. O falecimento de seu irmãozinho, Manuel Inácio, deixa marcas profundas sobre o jovem sensível. Alguns biógrafos atribuem ao choque com a morte do irmão uma febre que o domina entre os cinco e os seis anos, quase o mata, e que o deixaria debilitado pelo resto da vida. Certamente o poema “O Anjinho”, da Lira dos Vinte Anos, traduz, anos depois, a forte impressão que o episódio lhe causou:
 

         Ainda adoentado, inicia-se nos estudos com pouco brilho. Ingressa, aos nove anos, no Colégio Stoll, onde logo se destaca, sendo considerado, pelo professor Stoll, “o melhor dos alunos, pela inteligência, pelo espírito, pela amável alegria e, principalmente, pela bondade”. Terminado o primário, já fala francês e inglês e ingressa no célebre Colégio Dom Pedro II para cursar o ginásio. Lá, aprende o alemão, o grego e o latim e tem aulas de filosofia com o poeta Gonçalves de Magalhães, introdutor do romantismo no Brasil. Sempre enfrentando problemas de saúde, recebe com menção honrosa, em 1847, o título de Bacharel em Letras, o equivalente, hoje em dia, ao diploma do Segundo Grau.
         Em 1848, ingressa na Academia de Ciências Jurídicas de São Paulo. A partir da sua transferência para a capital paulista até a sua morte, em férias, no Rio de Janeiro, a história se mistura com a lenda e fica difícil distinguir o homem do mito.
         Nas suas cartas à família e aos amigos cariocas, assim como na peça Macário, Maneco revela um imenso tédio em morar na pequena “cidade colocada na montanha, envolta de várzeas relvosas” com “ladeiras íngremes e ruas péssimas”, nas quais “era raro o minuto em que não se esbarrasse a gente com um burro ou com um padre”. A capital paulista era, então, habitada por não mais de 15 mil pessoas, que viviam escandalizadas com as aventuras devassas de uma sociedade secreta de estudantes, fundada em 1845, conhecida como “Sociedade Epicuréia”. Seus membros, alunos da Academia, chamavam-se uns aos outros pelos nomes de personagens do Lord Byron e tinham, como objetivo principal, colocar em prática as “extravagantes fantasias” do poeta inglês. Realizavam orgias intermináveis e, diz a lenda, cerimônias macabras nos cemitérios paulistanos.
         Chegando a essa São Paulo, Álvares de Azevedo trava logo amizade com dois poetas estudantes, notórios boêmios, Aureliano Lessa e o futuro romancista Bernardo Guimarães. Juntos, planejam publicar um livro de versos, intitulado As Três Liras.
         Introvertido, estudioso, Álvares de Azevedo leu com avidez e produziu vertiginosamente durante os quatro anos de Faculdade. Escreveu os poemas reunidos nos livros Lira dos Vinte Anos e Poesias Diversas; os poemas longos O Poema do Frade e O Conde Lopo; o drama Macário; as narrativas de Noite na Taverna e O Livro de Fra. Gondicário; quase uma centena de páginas de estudos literários; alguns discursos acadêmicos e ainda incontáveis cartas pessoais enviadas ao Rio de Janeiro.
         Ficaria muito difícil, portanto, a um trabalhador tão incansável, de saúde sempre abalada, ter-se misturado com freqüência às orgias sucessivas e aos excessos dos companheiros boêmios, menos dedicados à literatura e ao estudo. Vida louca? Certamente a dos que o cercavam. A de Maneco parece, aos estudiosos mais sérios, ter se passado fundamentalmente entre os livros e os sonhos.
         Duas mortes marcaram profundamente o poeta nos seus últimos anos de vida. Em setembro de 1850, o quintanista Feliciano Coelho Duarte comete o suicídio. Em setembro de 1851, morre seu amigo João Batista da Silva Pereira Júnior. No discurso fúnebre do amigo, Álvares de Azevedo diria: “Cada ano uma vítima se perde nas ondas, e a sorte escolhe sorrindo os melhores dentre nós”.
         No seu quarto de pensão, compõe um poema dedicado ao amigo (Texto 3), e escreve na parede:          Entre os anos letivos de 1851 e 52, vai passar as férias com a família. Passeando a cavalo, a conselho médico, com seu cão Fiel pelas ruas do Rio de Janeiro, para amenizar os sintomas da tuberculose que o afligia, sofre uma queda. Após uma operação, segundo a família sem anestesia, para a remoção de um tumor na fossa ilíaca - provavelmente uma apendicite supurada - e depois de 46 dias de agonia, deixa a vida para virar lenda.


 
Lira dos Vinte Anos

Publicação e Organização

         A obra de Álvares de Azevedo é toda de divulgação póstuma. Maneco mal teve tempo de escrevê-la, quanto mais de organizá-la para publicação. Em 1853, o seu amigo Domingos Jacy Monteiro, seguindo as intenções do autor, que deixara anotações para a publicação em alguns cadernos, organiza o primeiro volume das “Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo”. Com o título de Poesias, o livro traz a primeira versão de Lira dos Vinte Anos, dividido em duas partes, mas sem os seus respectivos prefácios, e incluindo apenas os poemas até “É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!”. A partir da edição organizada por Joaquim Norberto de Sousa e Silva, em 1873, foi acrescida uma terceira parte ao livro. E assim, a cada edição a obra se modificava.
         A versão do livro que hoje temos como definitiva foi organizada por Homero Pires para a edição da Obras Completas de Álvares de Azevedo da Companhia Editora Nacional, em 1942. Ela é composta por um “Prefácio” geral à obra (Texto 1); uma “Dedicatória” a` mãe do poeta; a Primeira Parte, composta por 33 poemas que vão de “No Mar” a “Lembrança de Morrer” (Texto 4); a Segunda Parte, com  o seu “Prefácio” (Texto 5) e se compõe de 19 poemas que vão de “Um Cadáver de Poeta” a “Minha Desgraça” (Texto 9) - incluindo-se aqui, na contagem, os 6 da série “Spleen e Charutos”; e de uma Terceira Parte que vai de “Meu Desejo” a “Página Rota” e que, nas palavras do próprio Homero Pires, “não é senão uma continuação da primeira parte”.
         Para melhor entendermos as partes em que a obra se compõe, precisamos, antes, investigar um pouco as influências que o jovem Maneco recebeu dos autores mais importantes de seu tempo.
 
 



 
O Byronismo
 
         Álvares de Azevedo pode não ter participado das orgias ditas “byronianas” dos colegas do seu tempo. Mas ficaram fortemente impressas na sua obra as marcas desse tempo em que, segundo o seu contemporâneo de Faculdade, José de Alencar, “todo estudante de alguma imaginação queria ser um  Byron, e tinha por destino inexorável copiar ou traduzir o bardo inglês”.
         George Gordon, nascido pobre e manco em 1788, herdou, aos 16 anos, o título de Lord Byron e o castelo de Newstead. Espantou a sociedade aristocrática londrina com seus sucessivos e ruidosos casos amorosos, inclusive com sua meio-irmã Augusta, viajou por toda a Europa em busca de emoções, envolveu-se amorosamente tanto com homens quanto com mulheres, e morreu aos 36 anos, vítima da tuberculose,agravada por um ferimento em batalha, lutando pela libertação da Grécia, em 1824.
         Em meio a toda essa agitação existencial, que se tornou o paradigma do homem romântico que busca a liberdade, Byron escreveu uma obra grandiloqüente e passional. Encantou o mundo inicialmente com seus poemas narrativos folhetinescos, em que não faltam elementos autobiográficos, como Childe Harold’s Pilgrimage, e depois o assustou com a faceta satírica e satânica que apresenta em poemas como Don Juan.
         O cinismo e o pessimismo de sua obra haveriam de criar, juntamente com o mirabolante de sua vida, uma legião de jovens poetas “byronianos” por todo o mundo. Na França, Alfred de Musset encontraria nele o melhor exemplo do homem ( e do poeta ) que quebra todas as regras sociais e vive guiado apenas pela emoção. Sua versão do “byronismo”, é, no entanto muito mais adocicada e sentimental, faltando-lhe muito da ironia sarcástica do inglês. No Brasil, na época radicalmente francófilo, lia-se muito mais Musset do que Byron. Foi o francês, na verdade, com a sua versão açucarada de Byron, quem mais influenciou o “Ultra-romantismo” de Casimiro de Abreu e das primeiras produções poéticas de Álvares de Azevedo.
         Impregnado pelo “mal-do-século” - o tédio e a melancolia que a medicina da época imaginava fruto de uma bile negra produzida no baço ( em inglês: “spleen” ) - e sofrendo a “doença da moda”, como definiu a tuberculose o poeta inglês Shelley, Álvares de Azevedo imaginou, na sua obra ao menos, todo um universo de devassidão e pecaminosidade pelo qual se tornaria conhecido como o “Byron brasileiro”. Iniciou-se, no entanto, muito mais como um “Musset brasileiro” e, aos poucos, foi incorporando a` sua poesia a ironia cortante de George Gordon.
         A divisão da Lira dos Vinte Anos em partes corresponde a essa evolução. O livro parte do romantismo sonhador e sentimental na Primeira Parte, para alcançar o seu ápice no romantismo irônico e auto-crítico da Segunda. Do Byron-Musset ao Byron-Byron.
 
 


  
Primeira Parte

         Na Primeira Parte de Lira dos Vinte Anos predomina a poesia mais sentimental, o devaneio do primeiro Byron e de Musset. Pontificam o medo de amar, o desejo vago por virgens intangíveis, o sentimento de culpa frente aos desejos carnais e o fascínio com a morte.  Trata-se de uma poesia de seres imaginários e idéias abstratas vagando na noite enevoada. O livro se abre com as seguintes epígrafes:
 
 

“Cantando a vida, como o cisne a morte.”
Bocage
 
 
“Dieu, amour et poésie sont les trois mots que je voudrais seuls graver sur ma pierre,
si je mérite une pierre.”
Lamartine
 

         As palavras do Bocage pré-romântico e do romântico Lamartine anunciam, em boa parte, o que será o livro. A morte, Deus, o amor e a poesia inundam toda a obra. No prefácio, Álvares de Azevedo explica melhor como irá desenvolver essa temática na Primeira Parte da sua obra:
 
 
TEXTO I
 
         “São os primeiros cantos de um pobre poeta. Desculpai-os. As primeiras vozes do sabiá não têm a doçura dos seus cânticos de amor.
         É uma lira, mas sem cordas; uma primavera, mas sem flores; uma coroa de folhas, mas sem viço.
          Cantos espontâneos do coração, vibrações doridas  da lira interna que agitava um sonho, notas que o vento levou, - como isso dou a lume  essas harmonias.
         São as páginas despedaçadas de um livro não lido...
         E agora que despi minha musa saudosa dos véus do mistério do meu amor e da minha solidão, agora que ela vai seminua e tímida por entre vós derramar em vossas almas os últimos perfumes do seu coração, ó meus amigos, recebei-a no peito, e amai-a como o consolo que foi de uma alma esperançosa, que depunha fé na poesia e no amor - esses dois raios luminosos do coração de Deus.”

         A musa do poeta é saudosa, tímida e faz brotar, do sonho, uma poesia triste e sem vigor. Essas são as características básicas da poesia que Álvares de Azevedo se desculpa em apresentar ao público. Os poemas da Primeira Parte abordam, de forma abstrata e séria, os temas da morte e do amor platônico por uma virgem pálida envolta em brumas, seguindo a linha adocicada e intangível da poesia romântica de um Lamartine ou de Alfred de Musset. Leia agora três poemas, acrescidos de notas, escolhidos entre os 33 desta parte, para ilustrar o tratamento onírico  dado pelo poeta ao amor e à morte.
 
 
TEXTO 2

 
( Sem Título )
“Dreams! dreams! dreams!”
W.Cowper
  TEXTO 3
 
No túmulo do meu amigo
João Baptista da Silva Pereira Júnior
Epitáfio
   

TEXTO 4
 

Lembrança de Morrer
No more! o never more!
Shelley
   
 


 
Segunda Parte

 Na Segunda Parte de Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo envereda por um romantismo irônico e sarcástico. Sem abandonar os temas do amor e da morte, representados sempre sob o manto da noite sombria, passa agora a “falar com coisas” (para usar o termo de João Cabral de Melo Neto) - a poetizar os objetos que o rodeiam. Vai agora, em processo claramente metalingüístico, dia-logar ironicamente com os grandes autores do romantismo. Escreve sobre os charutos, sobre uma queda de cavalo (intuição?), sobre o dinheiro (ou a falta deste), em suma, sobre temas corriqueiros que não cabiam na poesia onírica e sentimental da Primeira Parte. Consciente da mudança, deixou-nos um Prefácio a esta parte que explica detalhadamente esta trans-formação. Leia-o atentamente. As notas procuram explicar detalhadamente as inúmeras referências que aparecem ao longo do texto.

TEXTO 5

Prefácio à Segunda Parte

        Cuidado, leitor, ao voltar a página!
        Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Barataria de D. Quixote, onde Sancho é rei ; e vivem Panúrgio , sir John Falstaff , Bardolph , Fígaro  e o Sganarello  de D. João Tenório: - a pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare.
        Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban .
        A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.
        Demais, perdoem-me os poetas do tempo, isto aqui é um tema, senão mais novo, menos esgotado ao menos que o sentimentalismo tão fashionable  desde Werther  e René .
        Por um espírito de contradição, quando os homens se vêem inundados de páginas amorosas, preferem um conto de Boccaccio , uma caricatura de Rabelais , uma cena de Falstaff no Henrique IV de Shakespeare, um provérbio fantástico daquele polisson  Alfredo de Musset , a todas as ternuras elegíacas  dessa poesia de arremedo que anda na moda e reduz as moedas de ouro se liga dos grandes poetas ao tronco de cobre, divisível até ao extremo, dos liliputianos  poetastros . Antes da Quaresma há o Carnaval.
        Há uma crise nos séculos como nos homens. É quando a poesia cegou deslumbrada de fitar-se no misticismo e caiu do céu sentindo exaustas as suas asas de ouro.
        O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem, Homo sum, como dizia o célebre Romano . Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado. Tem nervos, tem fibra e tem artérias - isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo. E, digam o que quiserem, sem esses elementos, que sou o primeiro a reconhecer muito prosaicos, não há poesia. O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo, a alma ainda trêmula e ressoante da febre do sangue, a alma que ama e canta, porque sua vida é amor e canto, o  que pode senão fazer o poema dos amores da vida real? Poema talvez novo, mas que encerra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico sem ser monótono. Digam e creiam o que quiserem: - todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.
O poema começa então pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal a beleza sensível e nua.
        Depois da doença da vida, que não dá ao mundo objetivo cores tão azuladas como o nome britânico de blue devils , descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia  amorosa, vem a sátira que morde.
        É assim. Depois dos poemas épicos Homero escreveu o poema irônico . Goethe depois de Werther criou o Faust . Depois de Parisina e o Giaour de Byron vem o Cain e Don Juan -  Don Juan que começa como Cain pelo amor, e acaba como ele pela descrença venenosa e sarcástica .
        Agora basta.
        Ficarás tão adiantado agora, meu leitor, como se não lesses essas páginas, destinadas a não ser lidas. Deus me perdoe! assim é tudo! até os prefácios.
 
     O Prefácio apresenta claramente um programa poético. A poesia “caiu do céu e “o poeta acorda na terra”. Vejamos como o poeta realiza esse programa em alguns poemas da Segunda Parte.

TEXTO 6

Idéias Íntimas
(Fragmentos)
    TEXTO 7
Spleen e Charutos
(Fragmentos)
  TEXTO 8
É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!
  TEXTO 9
Terza Rima
  TEXTO 10
Minha Desgraça
   


 
Terceira Parte

         Embora a Terceira Parte do livro seja realmente uma continuidade da poesia sonhadora e sentimental da primeira, nela encontramos um poema que foi considerado por Antonio Candido “um dos mais fascinantes e bem compostos de Álvares de Azevedo”.

TEXTO 11

Meu Sonho
           Deixemos que o próprio Antonio Candido  nos explique esse poema: À vista de certos traços de auto-erotismo na obra de Álvares de Azevedo, o fato da espada ser representada na mão do cavaleiro leva a pensar numa fantasia onírica de cunho masturbatório. (...) Esta leitura simbólica é confirmada por outros traços que completam o quadro, porque se ligam ao orgasmo, como “olhos ardentes” (verso 4), “gemidos nos lábios frementes” (verso 5), e quem sabe o fogo metafórico, talvez seminal, que arde no coração e dele transborda (verso 6). (...) Sendo assim, os elementos macabros estariam compondo com estes, de maneira peculiar, o par romântico Amor e Morte.
 
 

 
Exercícios
 
 
1. Leia atentamente as proposições abaixo e assinale a alternativa correta.

I . A publicação de Lira dos Vinte Anos se deu em 1853, no ano seguinte ao da morte do seu autor, Álvares de Azevedo.
II. O livro se divide em três partes. A primeira apresenta uma poesia mais sentimental, enquanto, na segunda, temos a faceta mais irônica e prosaica de Álvares de Azevedo. Já na terceira parte, é retomado o sentimentalismo da primeira.
III. Álvares de Azevedo, um autor adolescente, apresenta em todo o transcorrer do livro Lira dos Vinte Anos uma poesia ingênua e sentimental, sempre afastada da vida real.

A) Só a proposição I é correta.
B) Só a proposição II é correta.
C) Só a proposição III é correta.
D) As proposições I e II são corretas.
E) As proposições II e III são corretas.

2. Leia atentamente as proposições abaixo e assinale a alternativa correta.

I. No poema Meu Sonho,  o eu lírico lamenta, saudoso, a morte de uma flor que lhe remete à infância perdida.
II. No poema Anjinho, o autor de Lira dos Vinte Anos retoma a forte impressão que a morte do seu irmão lhe causou aos quatro anos de idade.
III. No poema Idéias Íntimas,  Álvares de Azevedo  realiza uma verdadeira viagem ao redor do seu quarto, na qual se confundem os objetos presentes, os delírios do eu lírico  alcoolizado e os desejos vagos do jovem adolescente.
 

A) Só a proposição I é correta.
B) Só a proposição II é correta.
C) Só a proposição III é correta.
D) As proposições I e II são corretas.
E) As proposições II e III são corretas.

Leia com atenção o fragmento abaixo, e responda às questões 3 e 4.
 

3. Assinale a alternativa incorreta sobre o texto acima:

A) Trata-se de um poema escrito em versos decassílabos brancos, o que revela o pendor romântico para a liberdade formal.
B) Trata-se de um dos fragmentos do poema Idéias Íntimas,  o que se pode perceber pela descrição do ambiente do quarto do eu lírico, misturada a seus devaneios.
C)  O eu lírico personifica o seu candeeiro, que o acompanha, seja nos estudos noturnos, seja nos devaneios amorosos. Revela, assim, toda a sua solidão.
D)  Trata-se de um poema sentimental, da primeira parte do livro, o que se revela pela ambientação noturna e intimista.
E)  Shakespeare e Byron foram duas fortes influências na obra de Álvares de Azevedo, o que se revela pela presença constante de epígrafes dos dois poetas ingleses nos poemas da Lira dos Vinte Anos.
 
 
4. O termo spleen, presente no poema,  é melhor traduzido como:

A) A tendência romântica de atribuir alma à natureza ou mesmo aos objetos que rodeiam o eu lírico, como o candeeiro, numa postura panteísta.
B) A propensão dos poetas românticos para imitar os clássicos como Dante, Shakespeare e Byron, o que pode ser constatado no início do poema.
C) O tédio e a melancolia característicos do mal-do-século. O que é reforçado no poema pelo termo pachorra.
D)  A ambientação noturna  da poesia romântica, presente no poema.
E)  A tendência romântica de construir personagens heróicos, seguindo o modelo de Camões e Ariosto, como está colocado no poema.
 
 
5. Assinale a alternativa correta a respeito das estrofes abaixo.
 

a) O segundo fragmento seguramente aparece na segunda parte de Lira dos Vinte Anos, pois trata-se de um poema na linha irônica e prosaica que caracteriza esta parte.
b) O segundo fragmento com certeza aparece na terceira parte de Lira dos Vinte Anos, pois trata-se de um poema na linha irônica e prosaica que caracteriza esta parte.
c) O segundo fragmento segue a linha de poesia ingênua e sentimental que caracteriza a primeira e a terceira partes de Lira dos Vinte Anos.
d) O primeiro fragmento com certeza aparece na primeira parte de Lira dos Vinte Anos, pois trata-se de um poema na linha irônica e ingênua que caracteriza esta parte.
e) O primeiro fragmento segue a linha de poesia ingênua e sentimental que caracteriza a segunda parte de Lira dos Vinte Anos.
 

6. O poema abaixo é um dos mais conhecidos de Álvares de Azevedo. Faz parte da série Spleen e Charutos, de Lira dos Vinte Anos. Leia-o atentamente para responder às questões que o seguem:
 

a) A mulher amada é representada nesse poema através de uma série de metáforas. Aponte três delas e o que representam no contexto geral do poema.
b) A partir da metáfora da lagartixa, comente como, em grande parte dos poemas deste livro de Álvares de Azevedo,  o eu lírico se relaciona com a  sua amada.
 
 
7 - No Prefácio à segunda parte da Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo afirma que deseja fazer o poema dos amores da vida real. E prossegue explicando: Poema talvez novo, mas que encer-ra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico sem ser monótono. Digam e creiam o que quiserem: - todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.
 Relacione as afirmações do Prefácio à Segunda Parte aos seguintes textos:

a) Texto 2 (Sem Título)
b) Texto 8  (“É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!”).

8 - Leia o poema abaixo, do poeta contemporâneo João Cabral de Melo Neto, e responda às perguntas que o seguem.
 

a) Como podemos interpretar o fragmento XI do poema Idéias Íntimas, à luz do poema acima?
b) Aponte, nos poemas da Segunda Parte de Lira dos Vinte Anos, elementos que nos levam a dizer que, nela, o poeta passa a “falar com coisas”.
 

9 - Leia a afirmação abaixo, do crítico Agripino Grieco, sobre Álvares de Azevedo:
 
     Era a poesia pura, o poeta puro, e morreu em estado de inocência, em estado de graça, realizando bem aquela “gentileza de morrer”, de que falou Leopardi. Com a sua existência cheia de constantes presságios de fim prematuro (...), Álvares foi bem o sonhador como o entendem os brasileiros, como o adoram os brasileiros, lírico, enternecido, confidencial, preguiçoso de ritmos balançando as palavras em rede de sesta, explorando as duas banalidades sempre originais deste nosso pobre mundo: o amor e a morte.

a) A afirmação pode ser generalizada para todo o conjunto da obra Lira dos Vinte Anos?
b) Justifique sua resposta com elementos dos poemas acima.

10 - Responda as questões a seguir, sobre o poema No túmulo do meu amigo João Baptista da Silva Pereira Júnior (Texto 3):

a) O poema traz o subtítulo de “Epitáfio”. Por quê?
b) Como. nesse poema, Álvares de Azevedo articula as imagens do desejo sexual e da morte?
c) O verso “Tateia a sombra a geração descrida...” poderia se referir a toda  Segunda Geração Romântica  da poesia brasileira? Justifique.
 
 



 
 
Respostas

1. D
2. E
3. D
4. C
5. A

6. a) Sol: calor e força vital.   Vinho:  a embriaguez da paixão.  Sono:  sonho amoroso.
    Copo ( de vinho):  a embriaguez da paixão.  Leito:  sonho sensual.
    b)  Tu és o sol e eu sou a lagartixa, afirma o eu lírico deste poema. A sua amada está, portanto,  distante e inacessível.  Enquanto o eu lírico lagartixa, pálido, frio e repugnante, vive do calor do sol distante,  a musa sol mal se dá conta do pequeno sáurio insignificante, alimentando-o apenas com olhares namorados. Essa relação entre um eu lírico doentiamente apaixonado e uma musa brilhante, pura e distante, perpassa todo o livro de Álvares de Azevedo que, como o colocou Mário de Andrade é o mais intenso dos representantes da geração do Amor e Medo. Dos poetas que amam e que se mantêm medrosamente à distância de suas amadas.

7. a) No Texto 2 a musa é retratada "no vapor da ilusão". Imagem onírica, a virgem angelical dorme e suspira. O eu-lírico rouba-lhe "um beijo divinal que acende as veias" e espera recuperar as "santas ilusões" de atingir a musa sonhada e distante. É exatamente contra essa postura que Álvares de Azevedo se coloca no Prefácio à Segunda Parte. Contra o "vaporoso da visão abstrata", prega "fazer o poema dos amores da vida real".
    b) No Texto 8 é este"poema dos amores da vida real" que vai fazer. A amada agora é uma lavadeira vizinha do eu lírico e ele vai visitá-la, furtivamente, à noite. Como a musa do poema da Primeira Parte, esta também dormia, mas não suspirava, "roncava maviosa e pura". O eu-lírico não encontra em seu seio um bilhete amoroso, mas um "rol de roupa suja", e no final, compara ironicamente a sua "lavadeira" às musas de Petrarca e Dante, assim como sua situação com a do Werther de Goethe.

8. a) No fragmento IX de Idéias Íntimas, assim como em boa parte do poema, Álvares de Azevedo vai tratar dos objetos que o rodeiam. No caso, trata poeticamente o candeeiro do seu quarto, falando não só "dele", mas literalmente "com ele". Assim, sua poesia torna-se menos abstrata, vaporosa, ou, para usar o termo de João Cabral, menos "líquida" e transforma-se em linguagem mais sólida, contundente e concreta.
    b)  No poema Terza Rima (Texto 9), o poeta vai abordar seu charuto, que produz as "névoas" de que na Primeira Parte do livro o poeta tanto fala. Em É Ela! É Ela! É Ela! É Ela! (Texto 8), aparecem, concretamente, a janela, as telhas, o ferro de engomar, os vestidos de chita e um rol de roupa suja.

9. a) Não. A afirmação parece levar em conta apenas os poemas da Primeira Parte da Lira dos Vinte Anos. Já na Segunda Parte, Álvares de Azevedo, ainda que continue a tematizar o amor e a morte, revela-se bem menos "sonhador", "enternecido" ou "confidencial".
    b) Basta pensarmos na ironia de É Ela! É Ela! É Ela! É Ela! (Texto 8). No devaneio embriagado de Idéias Íntimas (Texto 6), no elogio ao charuto de Terza Rima (Texto 9) ou no sarcasmo de A Minha Desgraça (Texto 10), para vermos que Álvares de Azevedo não foi sempre o "poeta puro" e "sonhador" que nos apresenta Agripino Grieco.

10. a) Segundo o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, um epitáfio é uma "inscrição tumular, um elogio fúnebre". Neste sentido o poema pode ser entendido como uma homenagem ao amigo que acabara de falecer. Ainda no mesmo verbete, temos "epitáfio" como uma "espécie de poesia satírica (geralmente em quadra) feita sobre um vivo como se tratasse de um morto". O poema, escrito em quadras, pode, assim, ser considerado como um epitáfio nesse segundo sentido: o eu-lírico estaria falando de si próprio como um morto, refletindo não sobre a morte do amigo, mas sobre sua própria morte.
     b) O desejo sexual é visto com impureza, nódoa, como um pecado que corrompe a vida. O eu-lírico, que inicia o poema pedindo perdão a Deus, está carregando de sentimento de culpa gerado pelo desejo. Vaga "errante e só pena treva infinda", procurando a redenção para os seus pecados. Essa redenção é atingida no túmulo: "é no sepulcro que a larva humana se desperta à vida!" A morte, portanto, aparece como forma de escape para o sentimento de culpa que o desejo sexual faz brotar no eu-lírico.
     c) A Segunda Geração Romântica da poesia brasileira foi chamada por Mário de Andrade de "Geração do Amor e Medo". Segundo ele, trata-se de uma geração de poetas que viveu com pânico do amor, ou mais claramente, da realização do ato sexual. Poetas como Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Junqueira Freire e principalmente o nosso Maneco, revelam na sua obra uma verdadeira fobia da relação carnal. Nesse sentido, o poema é uma boa mostra de como Álvares de Azevedo, e toda a sua geração, sente um enorme complexo de culpa em relação ao desejo sexual. Ao escrever o verso "Tateia a sombra a geração descrida...", Álvares de Azevedo certamente não pensava em definir toda uma geração poética do romantismo brasileiro. Mas, intuitivamente, o fez. A Segunda Geração da poesia romântica brasileira é exatamente aquela que perde as ilusões nacionalistas nutridas pelos nossos primeiros românticos. É, portanto, "descrida". Vai encontrar o escape para suas angústias na noite e na morte. Portanto, "tateia a sombra". Esse verso aplica-se, assim, tanto a Álvares de Azevedo e seus companheiros de Faculdade, quanto aos poetas que viriam a ser os seus mais importantes companheiros geracionais, como Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire.
 
 



 
 
Bibliografia Básica

1. Edições da Lira dos Vinte Anos utilizadas:

1.1. Obras Completas de Álvares de Azevedo; Org. Homero Pires; Rio de Janeiro; Companhia Editora Nacional; 1942.

1.2. Poesias Completas de Álvares de Azevedo; Rio de Janeiro; Ediouro; s.d.

1.3. Lira dos Vinte Anos; São Paulo; FTD; 1994.

2. Obras Consultadas:

2.1. ALMEIDA, Pires ; A Escola Byroniana no Brasil; São Paulo; Conselho Estadual de Cultura; 1962.

2.2. ANDRADE, Mário de ; "Amor e Medo" in Aspectos da Literatura Brasileira; São Paulo; Martins; 1960.

2.3. BARBOZA, Onédia Célia de Carvalho ; Byron no Brasil: Traduções; São Paulo; Ática; 1974.

2.4. CANDIDO, Antonio ; "Álvares de Azevedo, ou Ariel e Caliban" in Formação da Literatura Brasileira, Vol. 2, Belo Horizonte/ São Paulo; Itatiaia/Edusp, 1975.

2.5. CANDIDO, Antonio; "Cavalgada Ambígua" in Na Sala de Aula; São Paulo; Ática; 1985.

2.6. CARPEAUX, Otto Maria ; História da Literatura Ocidental - 8 Vols.; Rio de Janeiro; Alhambra; 1978.

2.7. CARVALHEIRO, Edgar ; Álvares de Azevedo; São Paulo; Melhoramentos; s.d.

2.8. JORDÃO, Vera Pacheco; Maneco, O Byroniano; Rio de Janeiro; Os Cadernos de Cultura/ MEC; 1955.

2.9. MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo; Poesia e Vida de Álvares de Azevedo; São Paulo; Editora da Américas; 1962.

2.10. VERÍSSIMO, José; "Álvares de Azevedo"; in Estudos de Literatura Brasileira, Segunda Série; Belo Horizonte/São Paulo
 
 


 
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