Pior do que a morte
para JC
 
              O pior é que dizem: rezou. 
                
              Ele que sempre foi contra, 
              do contra, ateu,  
              agora que zerou, 
              creu? 
                
              Ele que sabia que a vida é coisa  
              de sempre não. 
              Sem fórmulas fáceis,  
              nem saídas para a dor 
              de cabeça  
              de pensar  
              de ser sem crer.  
                
              Ele que sabia que não há aspirina 
              contra o bolor. 
                
              Logo dirão que se inspirou, 
              e compôs de improviso 
              um soneto vendido, 
              dos que sempre enfrentou.

              Dirão ainda que se converteu
              e defendeu a vida devota, 
              a pacificação bovina, 
              a prédica dos pastores. 

              (  Verbo e verba: 
                  pragas velhas.  ) 
                 
              E que se arrependeu do pecado 
              de ser exato, claro e enjoado. 
                
              Vida, te escrevo merda. 
              Às vezes fezes, mas sempre merda. 
              Fingida flor, feliz cogumelo, 
              caga e mela. 
              Sempre severa e cega 
              merda. 
                
              Triste é depender 
              de relatos carolas, 
              acadêmicos, cartolas. 

              Triste é depender
              da leitura alheia, 
              fáceis falácias: farsas. 
               
              Triste é depender
              dos olhos dos outros,  
              de voz de falsas sereias. 
               
              Triste é não poder mais 
              se defender.
                
              Mas 
              um aqui, João,  
              incerto, grita 
              e insiste em não crer 
              na sua crença repentina, 
              que a morte (sua) desminta a obra (sua) vida. 
                
              Um aqui, João, 
              o tem por certo: 
              é mais díficil o não 
              crer, não 
              ceder, não 
              descer, não 
              conceder. Não.
                
              Não, não orou.

   
Frederico Barbosa
10/10/99
 

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