um índio descerá de uma estrela colorida
brilhante de uma estrela que virá numa velocidade estonteante e pousará no coração
do hemisfério sul da américa num claro instante depois de exterminada a
última nação indígena e o espírito dos
pássaros das fontes de água
límpida mais avançado que
a mais avançada das mais avançadas das tecnologias virá impávido que nem
muhammad ali virá que eu vi apaixonadamente como peri virá que eu vi tranqüilo e infalível
como bruce lee virá que eu vi o axé do afoxé
filhos de ghandi virá
Caetano Veloso
O
Brasil não é um país de leitores. Nunca o foi. Poucos
foram os momentos em que a literatura conseguiu atingir, entre nós,
um público mais amplo do que um pequeno grupo intelectualizado e
fechado. Mesmo os nossos mais celebrados e consagrados escritores, como
Gonçalves Dias, Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade,
foram e continuam sendo lidos apenas por uma pequena elite mais interessada
e informada. A maior parte dos leitores dos clássicos da nossa literatura
parece estar reduzida, hoje, a colegiais que apenas os lêem para
cumprir uma enfadonha tarefa escolar. Lêem obrigados, pela nota,
e não pelo prazer da leitura.
Grandes criadores de ficção, como Machado de Assis ou José
de Alencar, transformam-se, assim, em verdadeiros monstros, ainda que sagrados.
Viram sinônimo de tortura, de chatice, de leitura imposta e cobrada.
Um monstro é sempre um monstro: assustador. Um ser sagrado não
deve ser tocado, curtido, lido. Deve ser reverenciado a distância,
no altar ou na estante - intocado e fechado.
Perde-se de vista que um Machado ou um Alencar, que sempre procuraram deleitar
e divertir os seus leitores, escreviam para serem consumidos, não
para serem reverenciados. Para que o leitor se aproxime de um clássico,
sem medo e sem reservas, é preciso que saiba que nem sempre foi
um clássico. Muitas vezes foi um livro revolucionário e polêmico.
Alguns foram até obras extremamente populares no seu tempo, como
as peças de Shakespeare, que chegou a ser acusado, por seus
contemporâneos, de ser um escritor apelativo e popularesco.
O Guarani é um clássico. Uma das obras mais importantes
da literatura brasileira. Mas que isso não assuste nem afaste o
leitor. O Guarani foi, antes de mais nada, um dos maiores sucessos
de público da história da nossa literatura. A maior parte
dos jovens, que hoje tremem ao saber que terão de ler O Guarani
como dever escolar, talvez não se sentissem tão ameaçados
se soubessem que houve época em que milhares dos seus semelhantes
se reuniam nas repúblicas estudantis, por todo o Brasil, só
para ouvir a leitura emocionada das aventuras narradas por Alencar.
Como hoje fazem fila para assistir aos filmes de Steven Spielberg ou aguardam
ansiosamente o capítulo final de uma novela de televisão.
Entre janeiro e abril do ano de 1857, ocorreu um dos maiores fenômenos
literários da história do nosso país. Durante breves
três meses, o Brasil parece ter sido um país de leitores.
Um jovem escritor cearense, aos 28 anos, prendeu a atenção
emocionada de boa parte dos brasileiros. O desconhecido José de
Alencar publicava diariamente no folhetim do jornal Diário do
Rio de Janeiro, que fundara e dirigia, as aventuras arrebatadoras do
primeiro super-herói brasileiro, um índio chamado Peri.
Alfredo de Taunay, futuro Visconde e autor de Inocência, tinha
14 anos quando O Guarani foi publicado. Muitos anos depois, ao escrever
suas Reminiscências, ainda guardava na memória a forte
impressão que a leitura dos folhetins causara em todo o Brasil.
Deixemos que nos conte o que aconteceu:
“... ainda vivamente me recordo do entusiasmo
que despertou, verdadeira novidade emocional, desconhecida nesta cidade
tão entregue às exclusivas preocupações do
comércio e da bolsa, entusiasmo particularmente acentuado nos círculos
femininos da sociedade e no seio da mocidade, então muito
mais sujeita ao simples influxo da literatura. ( ... ) O Rio de Janeiro em peso, para assim
dizer, lia O Guarani e seguia comovido e enlevado os amores tão
puros e discretos de Ceci e Peri e com estremecida simpatia acompanhava,
no meio de perigos e ardis dos bugres selvagens, a sorte vária e
periclitante dos principais personagens do cativante romance ( ... ). Quando a São Paulo chegava o correio,
com muitos dias de intervalo,então reuniam-se muitos estudantes
numa república em que houvesse qualquer feliz assinante do Diário
do Rio para ouvir absortos e sacudidos de vez em quando por elétrico
frêmito, a leitura feita em voz alta por algum deles, que tivesse
órgão mais forte. E o jornal era depois disputado com impaciência
e, pelas ruas, se viam agrupamentos em torno dos fumegantes lampiões
da iluminação pública de outrora - ainda ouvintes
a cercarem, ávidos de qualquer improvisado leitor.”
A publicação
de romances em folhetins - os capítulos aparecendo a cada dia nos
jornais - já era comum no Brasil desde a década de 1830.
A maior parte destes folhetins era composta por traduções
de romances de origem inglesa, como as histórias medievais de Walter
Scott, ou francesa, como as aventuras dos Três Mosqueteiros,
de Alexandre Dumas. Emocionados, os brasileiros acompanhavam as distantes
aventuras de um Ivanhoé ou de um D’Artagnan, transportando-se, em
espírito, para os campos da Inglaterra medieval ou para a Paris
do rei Luís.
Na década de 1840, começam a aparecer alguns folhetins de
autores nacionais, ambientados no Brasil. Teixeira e Sousa, considerado
por muitos o nosso primeiro romancista, estréia em 1843 com
O Filho do Pescador. No ano seguinte, o jovem estudante de medicina,
Joaquim Manuel de Macedo, surge com A Moreninha, o primeiro
romance nacional “apreciável pela coerência e pela execução”.
Em meio à corrente açucarada dos nossos primeiros folhetinistas
surge, já em 1852, a obra excêntrica de um jornalista carioca
de vinte e dois anos chamado Manuel Antônio de Almeida. As suas Memórias
de um Sargento de Milícias retratam de forma irônica a
vida do Rio de Janeiro “no tempo do rei” Dom João VI e apresentam
um contraponto cômico à seriedade por vezes excessiva e à
inverossimilhança dos romances do Dr. Macedinho.
Embora fizessem sucesso junto ao público, os nosso primeiros romances
não deixavam de ser considerados, pelos literatos “sérios”,
como “uma leitura agradável, diríamos quase um alimento
de fácil digestão, proporcionado a estômagos fracos.”
O romance, esse gênero literário novo e “fácil”, que
foi introduzido na literatura brasileira por autores como Joaquim Manuel
de Macedo e Manuel Antônio de Almeida, estava ainda esperando o seu
primeiro grande momento de explosão entre nós quando José
de Alencar hipnotizou os leitores brasileiros com O Guarani.
José de Alencar nasceu em 1829, apenas sete anos depois da Independência
do Brasil, em Mecejana, no Ceará. Filho de um ex-padre, que se tornou
presidente da Província do Ceará e Senador do Império,
o jovem Alencar se transfere, com a família, aos nove anos de idade
para a cidade do Rio de Janeiro. Em 1844, aos quinze anos, matricula-se
nos cursos preparatórios à Faculdade de Direito de São
Paulo. Lê, então, o recém publicado romance A Moreninha,
cujo sucesso em muito há de influenciá-lo na decisão
posterior de se tornar romancista.
Em São Paulo, Alencar cursa os primeiros anos da Faculdade de Direito
e começa a publicar seus primeiros textos em algumas revistas estudantis.
Transfere-se, 1848, para a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco.
Em Olinda, na velha biblioteca do Mosteiro de São Bento, encontra
a literatura dos antigos cronistas coloniais, como Gabriel Soares de Sousa
e Pero Magalhães Gandavo.
Anos mais tarde, Alencar ainda se recorda da emoção que foi
a descoberta desses autores do século XVI, que nos dão as
primeiras impressões dos europeus ao encontrarem a natureza e o
índio do Brasil, em cujas páginas já procurava um
tema para desenvolver em sua própria literatura.
“Uma coisa vaga e indecisa, que devia
parecer-se com o primeiro broto do Guarani ou de Iracema,
flutuava-me na fantasia. Devorando as páginas dos alfarrábios
de notícias coloniais, buscava com sofreguidão um tema para
o meu romance; ou pelo menos um protagonista, uma cena e uma época.”
Voltando
a São Paulo, após contrair tuberculose, forma-se em Direito
no final de 1850. No ano seguinte, retorna à capital do país
e lá começa a advogar. Não se esquece, porém,
da literatura. Em 1854, começa a escrever uma seção
diária no Correio Mercantil, intitulada Ao Correr da Pena,
em que comenta os mais variados assuntos da vida do Rio de Janeiro e do
país. Esses textos leves de temática cotidiana podem ser
considerados os precursores da crônica moderna, em que se haveriam
de destacar, no século seguinte, escritores como Rubem Braga, Fernando
Sabino e Carlos Drummond de Andrade.
Em 1855, Alencar é um dos fundadores do jornal O Diário
do Rio de Janeiro, do qual é editor-chefe. É através
desse jornal que vai publicar os textos que, logo, o tornarão conhecido
em todo o país. No final do ano de 1856, Alencar decide publicar
um folhetim como “brinde” aos leitores do jornal. Inicia, assim, sua carreira
de romancista. Publica o curto romance Cinco Minutos, que é
recebido por seus leitores com grande simpatia. Estimulado pelo sucesso
do primeiro, logo começa a publicar um segundo romance, A Viuvinha,
cuja publicação interrompe quando, por engano, um companheiro
seu publica o final da história na Revista de Domingo.
Inicia, então, a publicação de O Guarani.
Surge, assim, uma nova estrela, colorida e brilhante, na literatura nacional.
Uma estrela que há de escrever, “numa velocidade estonteante”,
os capítulos do romance do qual descerá um índio “mais
avançado que a mais avançada das mais avançada das
tecnologias” - o apaixonado Peri.
Um pouco antes de escrever O Guarani, Alencar participou, sempre
através das páginas do Diário do Rio de Janeiro,
de uma polêmica acalorada sobre o papel do índio na literatura
brasileira. O introdutor do romantismo entre nós, o poeta Gonçalves
de Magalhães, acabara de publicar um poema épico com temática
indianista. Amigo do imperador Dom Pedro II, Magalhães era,
de certa forma, o “poeta oficial” do Brasil naquele momento. Seu poema
A Confederação dos Tamoios fora lançado em
luxuosa edição patrocinada pelo imperador e recebido com
reverência por um restrito, mas fiel círculo de admiradores.
Em uma série de cartas assinadas com o pseudônimo de Ig.,
Alencar critica o artificialismo do tratamento do índio dado por
Magalhães que, segundo ele, “não está à
altura do assunto”. Saem em defesa do poeta vários amigos seus,
entre eles o próprio imperador Dom Pedro II. A polêmica se
desdobra do início de junho ao final de outubro de 1856. O autor
de O Guarani estivera pensando na questão do índio
- e discutindo-a nos jornais - durante boa parte do ano que antecedeu a
sua primeira incursão pelo terreno indianista.
Podemos mesmo perceber, em alguns pontos das cartas, que Alencar já
pensava em abordar a temática nos seus futuros escritos, associando-a
ao elogio da terra brasileira.
“Digo-o por mim: se algum dia fosse poeta,
e quisesse cantar a minha terra e suas belezas, se quisesse compor um poema
nacional, pediria a Deus que me fizesse esquecer por um momento as minhas
idéias de homem civilizado. Filho da natureza, embrenhar-me-ia por
essas matas seculares; contemplaria as maravilhas de Deus, veria o sol
erguer-se no seu mar de ouro, a lua deslizar-se no azul do céu;
ouviria o murmúrio das ondas e o eco profundo e solene das florestas.”
Desde
as primeiras páginas de O Guarani, fica claro que o seu autor
procura colocar essas idéias em prática ao seguir o curso
do Paquequer.
Mas não seria através da poesia que Alencar haveria de “cantar
a minha terra e suas belezas”. Ainda na polêmica sobre A Confederação
dos Tamoios, o autor de Iracema critica o uso de gêneros poéticos
clássicos para descrever o índio brasileiro.
“Escreveríamos um poema, mas não
um poema épico; um verdadeiro poema nacional, onde tudo fosse novo,
desde o pensamento até a forma, desde a imagem até o verso.
A forma com que Homero cantou os gregos não serve para cantar os
índios; o verso que disse as desgraças de Tróia e
os combates mitológicos não pode exprimir as tristes endeixas
do Guanabara, e as tradições selvagens da América.
Porventura não haverá no caos incriado do pensamento humano
uma nova forma de poesia, um novo metro de verso?”
Foi
através de um gênero que engatinhava no Brasil, o romance,
que Alencar encontrou o melhor veículo para cantar o índio
e as belezas da sua terra. Mesclando o tratamento do índio
com o exotismo da Idade Média, idealizada por Walter Scott, e as
aventuras dos heróis de Alexandre Dumas, atingiu um público
muito mais amplo do que os poetas que o precederam na apresentação
da figura do índio como símbolo da pureza nacional.
Basílio da Gama e mesmo Gonçalves Dias jamais foram tão
populares.
Não foram fáceis os meses dedicados a escrever O Guarani.
O leitor que acompanhava embevecido as aventuras de Peri mal poderia supor
o cotidiano do escritor que o conduzia pelas matas bravias. Alguns anos
depois, Alencar revelaria as dificuldades do seu trabalho.
“No meio das labutações
do jornalismo, oberado não somente com a redação de
uma folha diária, mas com a administração da empresa,
desempenhei-me da tarefa que me impusera, e cujo alcance eu não
medira ao começar a publicação, apenas com os dois
primeiros capítulos escritos.”
O
leitor atento não deixará de perceber que há realmente
uma certa diferença entre os dois primeiros capítulos e o
restante do livro. Descritivos, lentos, chegam a desanimar o leitor mais
ávido por ação. Sutil, Alencar se desculpa ao final
do segundo capítulo:
“Demorei-me em descrever a cena e falar
de algumas da principais personagens deste drama porque assim era preciso
para que bem se compreendam os acontecimentos que depois se passariam.
Deixarei porém que os outros perfis se desenhem por si mesmos.”
É
o que acontece. O resto do romance se desenvolve de maneira muito mais
veloz. A narrativa vai-se tornando cada vez mais ágil à medida
que as personagens vão entrando em ação. A rapidez
desses capítulos reflete o seu processo de criação.
“Acordava por assim dizer na mesa de
trabalho, e escrevia o resto do capítulo começado no dia
antecedente para enviá-lo à tipografia. Depois do almoço
entrava por novo capítulo, que deixava em meio. Saía então
para fazer algum exercício antes do jantar no “Hotel de Europa”.
A tarde, até nove ou dez horas da noite, passava no escritório
da redação, onde escrevia o artigo editorial e o mais que
era preciso.”
A
descrição em muito se assemelha ao trabalho dos escritores
das telenovelas de hoje. Assim como o fazem as redes de televisão,
Alencar ia colhendo opiniões entre o seu público para dar
continuidade ao romance. Mais de uma vez chegou a mudar o destino das personagens
de acordo com os palpites e as reclamações das suas primas
e irmãs. Escrevia ouvindo seus leitores. Sabia, portanto, muito
bem o que o público queria. Aventura e amor, ação
e emoção. Em crônica de 1855, afirmara que um romance
“é uma história dividida em capítulos, que principia
rindo e acaba chorando , ou vice-versa; e na qual devem entrar necessariamente
um namorado, uma moça bonita, um homem mau, e diversas figuras de
menos importância.” Foi exatamente o que deu a seus leitores.
Romance histórico, antes de ser indianista, O Guarani apresenta
figuras que realmente existiram, como D. Antônio de Mariz e seu filho
Diogo, transformados por uma poderosa imaginação em verdadeiros
cavaleiros medievais. A descrição da fortaleza de D. Antônio
mescla detalhes da arquitetura colonial brasileira à imagem perfeita
de um castelo medieval. A relação de D. Antônio com
os aventureiros que o servem é a de vassalagem feudal, com direito
até a juramento de eterna lealdade. As bandeiras são apresentadas
seguindo a imagem romantizada das cruzadas medievais. Ou seja, estamos
no Brasil de 1604 descrito como um espelho da Europa medieval.
Nesse ambiente romanticamente selvagem, ou selvaticamente romântico,
surge Cecília, a princesa loira, pura e ingênua. Para ela
convergem três linhas, três formas de amor. O amor “carnal”
de Loredano, o amor “cortês” de Álvaro e o amor “religioso”
de Peri. Loredano, na verdade Frei Ângelo di Luca, é o vilão
da história, personifica todo o mal. Desertor da religião,
ganancioso, traidor, deseja Cecília sexualmente. Cavalheiro, nobre,
Álvaro a ama respeitosamente, como futura esposa, e lhe faz a corte
com discrição. Termina por se envolver com a mestiça
Isabel, filha de D. Antônio com uma índia. Isabel acaba se
tornando uma das personagens mais complexas do romance, tanto no seu amor
por Álvaro, quanto no complexo de inferioridade e no preconceito
que carrega devido à mestiçagem.
Já Peri é o nosso grande herói. Capaz de saltar como
uma onça, enfrentar um poço cheio de cobras, arrancar uma
palmeira com os braços, é muito mais do que um índio.
Nas palavras do seu criador, “é um ideal, que o escritor intentou
poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os cronistas,
e arrancando-o ao ridículo que sobre ele projetam os restos embrutecidos
da quase extinta raça.” Falando sempre por metáforas
tiradas da natureza, Peri se apresenta como o índio que se dedica
inteiramente ao serviço de Cecília, que chama de Ceci - "dor",
"sofrimento". Passa a idolatrar sua “senhora” ao identificá-la com
uma imagem de Nossa Senhora, que o deslumbrara em meio a um incêndio.
Por ela, abandona sua tribo, sua língua e, por fim, até sua
religião. Como se prisioneiro de uma cantiga de amor medieval, vive
uma eterna vassalagem amorosa, idolatrando a sua senhora, vivendo a sua
“ceci”, o equivalente indígena da “coyta” medieval.
A grande imaginação transformadora de Alencar atua também
sobre os textos dos cronistas coloniais que tanto o fascinaram quando jovem,
em Olinda. Transcreve de maneira quase literal as descrições
dos índios feitas por um Gandavo ou um Soares de Sousa, mas vai
acrescentando-lhes detalhes dramáticos de grande efeito. O ritual
antropofágico dos Aimorés segue rigorosamente a descrição
de Pero de Magalhães Gandavo, mas Alencar acrescenta o brilho do
auto-envenenamento de Peri. Para salvar sua senhora, o nosso herói
imagina ser devorado pelos Aimorés, que ingeririam também
o veneno que trazia em seu corpo.
O exagero imaginativo do romance foi reconhecido, anos depois, pelo próprio
Alencar.
“N’O Guarani derrama-se o lirismo
de uma imaginação moça, que tem como a primeira rama
o vício da exuberância; por toda a parte a linfa, pobre de
seiva, brota em flor ou folha.”
Essa
floresta farta de imaginação é habitada por um índio
que é a síntese de todas as raças. É impávido
como o negro de nome árabe Muhammad Ali. É tranqüilo
e infalível como o oriental de nome europeu Bruce Lee. É
apaixonado como só ele poderia ser: Peri.
É por essa floresta colorida, brilhante, que o leitor que começar
a ler O Guarani vai penetrar. Seguindo o Paquequer. Porque quer.
Sem saber o final. Só para ver onde vai dar. Como Cecília
e Peri, destemido leitor, “tu viverás”.