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Esta estante fica reservada aos livros de que gosto, às resenhas dos livros que curti ler, aos comentários sobre livros bons e ruins, às críticas à má literatura, aos trechos geniais de obras conhecidas e desconhecidas, aos meus textos, aos textos de amigos que fazem da escrita seu modo de vida, às entrevistas que farei com escritores e, eventualmente, aos comentários sobre música e cinema. 
 
 

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14.3.03

FREDERICO DE MARQUINHA, DEITADO NA REDE, DANDO ENTREVISTA 

Depois de curtir as praias do Nordeste, queimadinho e com marquinha de sunga, Frederico Barbosa deu uma entrevista para esta Estante. O cara é tremendamente simpático e gentil, ao contrário do que pôde parecer na minha resenha sobre a antologia Na virada do século, que é o assunto preferencial aqui. 

Quem não se lembrar mais, até porque esta Estante está uma zona, completamente fora de ordem, pode verificar a resenha nas semanas anteriores e rever o que se disse sobre a antologia da editora Landy, que Barbosa fez junto com Cláudio Daniel. (Clique aqui para ler a resenha) E lenha na fogueira: 

Estante: A intenção da antologia Na virada do século é clara: juntar a galera que produz poesia na virada XX-XXI. Que critérios vocês utilizaram para juntar esse povo todo? 

Frederico: Escolhemos 46 poetas entre os muitos cuja obra conhecemos. É importante lembrar que com vários deles nunca tínhamos entrado em contato pessoalmente. Ou seja, não eram ou são nossos ´amiguinhos´. O critério foi sempre o da inventividade. Não no sentido poundiano, de ´poetas inventores´, pois esses são muito raros, raríssimos. Mas no sentido de escolher aqueles cujo trabalho está em sempre procurar reinventar a linguagem, procurando novas saídas para os dilemas da linguagem e da vida. 

Estante: É difícil o processo de selecionar e publicar uma antologia? 

Frederico: Dificílimo. Se ´poesia é risco´, escolher poesia é um risco duplicado. E certamente comentemos injustiças, involuntárias, é claro. Não me arrependo de ter deixado de fora nenhum poeta. Alguns poetas bastante festejados não entraram: foi consciente. Como já declarei algumas vezes, essa antologia não tem qualquer pretensão de ´neutralidade´. A pretensa ´neutralidade´ é o refúgio mais comum dos covardes e dos oportunistas. Dizendo-se ´neutros´, destilam os piores venenos e preconceitos possíveis. Veja-se a ´neutralidade´ (chovam aspas) com que uma boa parcela da universidade trata a poesia contemporânea. A diversidade de fato marca a poesia presente na antologia, mas as duas vertentes poéticas mais comuns no Brasil contemporâneo foram sistemática e intencionalmente ignoradas: a poesia bem-comportada, bonitinha mas ordinária, dos neoparnasianos arcaizantes, que se dedicam a criar requintes postiços e defender o retrocesso e a gratuidade retratista, ingênua e simplista dos neodrummondianos redutores. Sinto apenas não ter descoberto, ao fazer a antologia, alguns poetas que só viria a descobrir mais tarde. Poetas muito interessantes, como os paraibanos André Ricardo Aguiar e Antônio Mariano Lima, a curitibana Greta Benitez e você mesma, Ana Elisa Ribeiro, cujo excelente livro Perversa só tive a oportunidade de ler depois. Mas talvez tenha a chance de fazer uma nova edição... com os acréscimos devidos. 

Estante: Devem rolar altas intrigas, né? Uns que não querem entrar porque são inimigos de outros; gente que foi esquecida e morreu de ódio; gente que foi lembrada e morreu de tédio. O que rola nos bastidores da seleção antológica? 

Frederico: O ambiente literário, que eu saiba, é sempre assim, muito podre. Isso me faz constantemente querer pular fora, desistir, parar de escrever ou publicar, como já o fiz durante sete pacíficos anos. Mas eu e o Cláudio Daniel, felizmente, realizamos todo o trabalho de pesquisa, seleção e edição nos mantendo fora de qualquer intriga. Jamais iria publicar um poetinha medíocre porque ele é editor de algum jornal ou importante em algum centro cultural, como muitos o fazem. Escolhemos poetas e poemas criteriosamente: era o que todos deveriam fazer. 

Estante: Se até os pais têm preferência por um filho em detrimento de outros, imagino que os antologistas também tenham suas preferências. Quem você destaca na antologia? 

Frederico: Como já disse, todos os poetas foram escolhidos por seus méritos. Portanto, é difícil destacar este ou aquele. A parte de antologia que ficou exclusivamente a meu encargo, a dos poetas inéditos, no entanto, é a que me orgulha mais. É claro que alguns resenhistas já criticaram essa iniciativa, mas publicar poetas extraordinários, como Amador Ribeiro Neto, André Dick, Jorge Padilha, Micheliny Verunschk, Paulo César de Carvalho e Takeshi Ishihara, que ainda não haviam tido a chance de publicar qualquer livro, foi o que me deu maior satisfação. Desde então, o André Dick já publicou seu primeiro e belo livro, Grafias. Na Coleção Alguidar, que fundei no ano passado para a Landy, já estão agendadas, para este semestre, as publicações dos livros de estréia do Amador, da Micheliny e do Paulo César. Pretendo publicar, se possível ainda este ano, os livros do Takeshi e do Jorge Padilha, que, por sinal, está fazendo todo o projeto gráfico interno dos livros da Alguidar. 

Estante: Como você analisa a cena literária atual? 

Frederico: A cena literária atual está como sempre esteve. A mediocridade sempre foi o que apareceu mais na mídia, nas revistas, nas discussões, nos prêmios, etc. É bom lembrar que durante algumas décadas, em que estavam em plena produção Manuel Bandeira, Drummond, Murilo Mendes e João Cabral, entre outros, o milionário editor Augusto Frederico Schimdt é que era considerado pela maioria como o ´maior poeta do Brasil´. Quem o lê hoje? A coisa continua igual. Sei que muita coisa boa está sendo feita nos subterrâneos, enquanto triunfam os medíocres, os endinheirados, os poderosos de ocasião, os bajuladores, os poetas que são críticos de encomenda com suas idéias de aluguel. Mas o futuro escolherá o que vai ler. 

Estante: Uma jornalista mineira esteve nos eventos de Fortaleza sobre poesia e voltou dizendo algo interessante: que a mesa-redonda dos poetas encheu o saco, foi o maior chororô de ´não vende´, ´não tem estímulo´, e tal. E que a mesa dos prosadores foi animada, cheia de perspectivas, etc. O que você acha disso? Será que o chororô dos poetas mal-vendidos é anterior ao problema mercadológico? Será que a prosa vende mais mesmo? Você conhece algum prosador novo que esteja vendendo pilhas de livros? 

Frederico: Eu acho que o a choradeira não ajuda em nada. Temos que colocar a mão na massa e trabalhar. Creio que o maior problema na venda de poesia está na distribuição. A maioria das editoras não banca a edição de livros de poesia: os poetas em geral pagam a própria edição e a distribuem entre os amigos... Fica uma coisa muito pouco profissional. As próprias editoras, que não precisam recuperar o investimento (já que não o fizeram) pouco se interessam em distribuir os livros. Nesse sentido, o advento de uma coleção de poesia como a Alguidar, editada pela Landy, é bastante diferenciada. Nenhum poeta paga nada pela edição, e a editora se interessa, e muito, na distribuição e nas vendas. É bem diferente do que ocorre nas outras editoras que publicam poesia, não? 

Estante: E você? Fale dos seus livros, dos seus poemas. 

Frederico: Prefiro convidar os leitores a conhecerem meus livros, que estão, na sua totalidade, no meu site: http://fredbar.sites.uol.com.br/ . Lá, encontrarão também diversas entrevistas em que comento minha obra e o panorama geral da poesia. Apareçam! 

Estante: Obrigada, Frederico! 

Frederico: Eu é que agradeço a oportunidade. Parabéns pelo blog de altíssimo nível e por sua poesia tão contundente e rara. 
 

Sexta-feira, Março 14, 2003 

3.2.03

          antô, morô? 

Antologia é sempre uma coisa complicada porque muitas pessoas são incluídas, quando deviam ser linchadas e postas pra fora do universo; outras pessoas são esquecidas, quando deveriam ser pagas a peso de ouro para estar lá; e muitas pessoas ficam ali, em cima do muro, cagando na moita sem sair de trás dela. 

Mas também penso que é muito bom comprar uma antologia legal pra dar uma olhada na paisagem contemporânea, ver qual é a do panorama da época sonsa em que a gente vive, dar uma espiada em quem está fazendo o quê. E esta antologia, Na virada do século, dá um panorama bem amplo dos poetas hoje. 

O livro é grosso, estreito, cheio de gente citada neste blog: Joca Terron, Ricardo Aleixo, etc. e mais um monte desses caras que a gente encontra nos botecos da Vila Madalena, em São Paulo. Há aqueles poemas meia boca, o que não é o caso nem do Joca e nem do Aleixo, e há poemas impressionantemente bons. Destaco uma figura chamada Lau Siqueira que pariu o melhor poema de todos os tempos da última semana: ´Aos predadores da utopia´. Vejam isto: 

Dentro de mim 
morreram muitos tigres 

Os que ficaram 
no entanto 
são livres. 

Do caracoles que fiquei arrepiada até as pupilas. Tranquei os dentes, fechei o olho e deixei entrar. Lau Siqueira está bem-acompanhado, podem ter certeza. 

 
Na virada do século 
Frederico Barbosa e Cláudio Daniel 
juntaram uma porrada de gente 
de tudo quanto é canto 
Editora Landy
Segunda-feira, Fevereiro 03, 2003
Publicado por Ana Elisa Ribeiro
 

 
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