FREDERICO DE MARQUINHA, DEITADO NA REDE, DANDO ENTREVISTA
Depois de curtir as praias do Nordeste, queimadinho e com marquinha
de sunga, Frederico Barbosa deu uma entrevista para esta Estante. O cara
é tremendamente simpático e gentil, ao contrário do
que pôde parecer na minha resenha sobre a antologia Na virada
do século, que é o assunto preferencial aqui.
Quem não se lembrar mais, até porque esta Estante está
uma zona, completamente fora de ordem, pode verificar a resenha nas semanas
anteriores e rever o que se disse sobre a antologia da editora Landy, que
Barbosa fez junto com Cláudio Daniel. (Clique aqui
para ler a resenha) E lenha na fogueira:
Estante: A intenção da antologia Na virada do
século é clara: juntar a galera que produz poesia na
virada XX-XXI. Que critérios vocês utilizaram para juntar
esse povo todo?
Frederico: Escolhemos 46 poetas entre os muitos cuja obra conhecemos.
É importante lembrar que com vários deles nunca tínhamos
entrado em contato pessoalmente. Ou seja, não eram ou são
nossos ´amiguinhos´. O critério foi sempre o da inventividade.
Não no sentido poundiano, de ´poetas inventores´, pois
esses são muito raros, raríssimos. Mas no sentido de escolher
aqueles cujo trabalho está em sempre procurar reinventar a linguagem,
procurando novas saídas para os dilemas da linguagem e da vida.
Estante: É difícil o processo de selecionar e publicar
uma antologia?
Frederico: Dificílimo. Se ´poesia é risco´,
escolher poesia é um risco duplicado. E certamente comentemos injustiças,
involuntárias, é claro. Não me arrependo de ter deixado
de fora nenhum poeta. Alguns poetas bastante festejados não entraram:
foi consciente. Como já declarei algumas vezes, essa antologia não
tem qualquer pretensão de ´neutralidade´. A pretensa
´neutralidade´ é o refúgio mais comum dos covardes
e dos oportunistas. Dizendo-se ´neutros´, destilam os piores
venenos e preconceitos possíveis. Veja-se a ´neutralidade´
(chovam aspas) com que uma boa parcela da universidade trata a poesia contemporânea.
A diversidade de fato marca a poesia presente na antologia, mas as duas
vertentes poéticas mais comuns no Brasil contemporâneo foram
sistemática e intencionalmente ignoradas: a poesia bem-comportada,
bonitinha mas ordinária, dos neoparnasianos arcaizantes, que se
dedicam a criar requintes postiços e defender o retrocesso e a gratuidade
retratista, ingênua e simplista dos neodrummondianos redutores. Sinto
apenas não ter descoberto, ao fazer a antologia, alguns poetas que
só viria a descobrir mais tarde. Poetas muito interessantes, como
os paraibanos André Ricardo Aguiar e Antônio Mariano Lima,
a curitibana Greta Benitez e você mesma, Ana Elisa Ribeiro, cujo
excelente livro Perversa só tive a oportunidade de ler depois.
Mas talvez tenha a chance de fazer uma nova edição... com
os acréscimos devidos.
Estante: Devem rolar altas intrigas, né? Uns que não
querem entrar porque são inimigos de outros; gente que foi esquecida
e morreu de ódio; gente que foi lembrada e morreu de tédio.
O que rola nos bastidores da seleção antológica?
Frederico: O ambiente literário, que eu saiba, é
sempre assim, muito podre. Isso me faz constantemente querer pular fora,
desistir, parar de escrever ou publicar, como já o fiz durante sete
pacíficos anos. Mas eu e o Cláudio Daniel, felizmente, realizamos
todo o trabalho de pesquisa, seleção e edição
nos mantendo fora de qualquer intriga. Jamais iria publicar um poetinha
medíocre porque ele é editor de algum jornal ou importante
em algum centro cultural, como muitos o fazem. Escolhemos poetas e poemas
criteriosamente: era o que todos deveriam fazer.
Estante: Se até os pais têm preferência por
um filho em detrimento de outros, imagino que os antologistas também
tenham suas preferências. Quem você destaca na antologia?
Frederico: Como já disse, todos os poetas foram escolhidos
por seus méritos. Portanto, é difícil destacar este
ou aquele. A parte de antologia que ficou exclusivamente a meu encargo,
a dos poetas inéditos, no entanto, é a que me orgulha mais.
É claro que alguns resenhistas já criticaram essa iniciativa,
mas publicar poetas extraordinários, como Amador Ribeiro Neto, André
Dick, Jorge Padilha, Micheliny Verunschk, Paulo César de Carvalho
e Takeshi Ishihara, que ainda não haviam tido a chance de publicar
qualquer livro, foi o que me deu maior satisfação. Desde
então, o André Dick já publicou seu primeiro e belo
livro, Grafias. Na Coleção Alguidar, que fundei no
ano passado para a Landy, já estão agendadas, para este semestre,
as publicações dos livros de estréia do Amador, da
Micheliny e do Paulo César. Pretendo publicar, se possível
ainda este ano, os livros do Takeshi e do Jorge Padilha, que, por sinal,
está fazendo todo o projeto gráfico interno dos livros da
Alguidar.
Estante: Como você analisa a cena literária atual?
Frederico: A cena literária atual está como sempre
esteve. A mediocridade sempre foi o que apareceu mais na mídia,
nas revistas, nas discussões, nos prêmios, etc. É bom
lembrar que durante algumas décadas, em que estavam em plena produção
Manuel Bandeira, Drummond, Murilo Mendes e João Cabral, entre outros,
o milionário editor Augusto Frederico Schimdt é que era considerado
pela maioria como o ´maior poeta do Brasil´. Quem o lê
hoje? A coisa continua igual. Sei que muita coisa boa está sendo
feita nos subterrâneos, enquanto triunfam os medíocres, os
endinheirados, os poderosos de ocasião, os bajuladores, os poetas
que são críticos de encomenda com suas idéias de aluguel.
Mas o futuro escolherá o que vai ler.
Estante: Uma jornalista mineira esteve nos eventos de Fortaleza
sobre poesia e voltou dizendo algo interessante: que a mesa-redonda dos
poetas encheu o saco, foi o maior chororô de ´não vende´,
´não tem estímulo´, e tal. E que a mesa dos prosadores
foi animada, cheia de perspectivas, etc. O que você acha disso? Será
que o chororô dos poetas mal-vendidos é anterior ao problema
mercadológico? Será que a prosa vende mais mesmo? Você
conhece algum prosador novo que esteja vendendo pilhas de livros?
Frederico: Eu acho que o a choradeira não ajuda em nada.
Temos que colocar a mão na massa e trabalhar. Creio que o maior
problema na venda de poesia está na distribuição.
A maioria das editoras não banca a edição de livros
de poesia: os poetas em geral pagam a própria edição
e a distribuem entre os amigos... Fica uma coisa muito pouco profissional.
As próprias editoras, que não precisam recuperar o investimento
(já que não o fizeram) pouco se interessam em distribuir
os livros. Nesse sentido, o advento de uma coleção de poesia
como a Alguidar, editada pela Landy, é bastante diferenciada. Nenhum
poeta paga nada pela edição, e a editora se interessa, e
muito, na distribuição e nas vendas. É bem diferente
do que ocorre nas outras editoras que publicam poesia, não?
Estante: E você? Fale dos seus livros, dos seus poemas.
Frederico: Prefiro convidar os leitores a conhecerem meus livros,
que estão, na sua totalidade, no meu site: http://fredbar.sites.uol.com.br/
. Lá, encontrarão também diversas entrevistas em que
comento minha obra e o panorama geral da poesia. Apareçam!
Estante: Obrigada, Frederico!
Frederico: Eu é que agradeço a oportunidade. Parabéns
pelo blog de altíssimo nível e por sua poesia tão
contundente e rara.
Sexta-feira,
Março 14, 2003 Publicado por
Ana Elisa Ribeiro