Episódio do Velho
do Restelo
(Canto IV, estrofes 90 a 104)
"Qual vai dizendo: —" Ó
filho, a quem eu tinha
Só para refrigério,
e doce amparo
Desta cansada já velhice
minha,
Que em choro acabará,
penoso e amaro,
Por que me deixas, mísera
e mesquinha?
Por que de mim te vás,
ó filho caro,
A fazer o funéreo enterramento,
Onde sejas de peixes mantimento!"
—
Uma mãe
fala ao filho, lamentando-se de que ele, que iria ampará-la e cuidar
dela na velhice, a está abandonando para servir de alimento aos
peixes. O lamento das mulheres nessa e na estrofe seguinte é plenamente
justificado: a frota de Vasco da Gama deixou o cais do Restelo com 170
homens, dos quais apenas 55 retornariam vivos a Portugal.
"Qual em cabelo: —"Ó
doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor
que viver possa,
Por que is aventurar ao mar
iroso
Essa vida que é minha,
e não é vossa?
Como por um caminho duvidoso
Vos esquece a afeição
tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão
contentamento
Quereis que com as velas leve
o vento?" —
Outra
mulher, com o cabelo descoberto (“em cabelo”), pergunta ao marido, sem
o qual não poderá viver, o motivo de ele ir arriscar a vida
ao mar bravio, quando a vida dele pertence a ela, e não a ele; e
como ele pode esquecer ou trocar o sentimento deles pela incerteza dos
ventos e do mar. Será que ele deseja que o vento leve, com as velas
da embarcação, o seu amor? Note-se a aliteração
final (Velas leVe o Vento) que imita o som do Vento.
"Nestas e outras palavras que
diziam
De amor e de piedosa humanidade,
Os velhos e os meninos os seguiam,
Em quem menos esforço
põe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;
A branca areia as lágrimas
banhavam,
Que em multidão com elas
se igualavam.
Com estas
e outras palavras de amor e de piedade, os velhos e as crianças,
a quem a idade faz mais fracos, os seguiam. E os montes, como se estivessem
comovidos, respondiam a estes lamentos com ecos. As lágrimas molhavam
a areia, e eram tantas que, em quantidade, se igualavam à areia.
"Nós outros sem a vista
alevantarmos
Nem a mãe, nem a esposa,
neste estado,
Por nos não magoarmos,
ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assim nos embarcarmos
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor
usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais
magoa.
Com medo
de sofrer ou se arrepender, os nautas (navegantes), não olhavam
para as mães e esposas. Vasco da Gama decidiu que embarcariam sem
a despedida costumeira, porque, ainda que seja um bom costume porque mostra
o amor das pessoas, faz sofrer a quem parte e a quem fica.
"Mas um velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre
a gente,
Postos em nós os olhos,
meneando
Três vezes a cabeça,
descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos
claramente,
C'um saber só de experiências
feito,
Tais palavras tirou do experto
peito:
Mas um
velho de aspecto respeitável (venerável), que estava entre
as pessoas, na praia, olhando para os navegadores e balançando a
cabeça negativamente, levantou um pouco mais alto a voz grave, que
foi ouvida claramente pelo que estavam no mar, e com uma sabedoria feita
de experiências disse algumas palavras sábias, inteligentes,
e profundas (“experto peito” - “experto” = experiente, experimentado, culto,
inteligente).
—"Ó glória de
mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos
Fama!
Ó fraudulento gosto,
que se atiça
C'uma aura popular, que honra
se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que
muito te ama!
Que mortes, que perigos, que
tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
Este prazer
dos homens de dominar e a cobiça fútil e sem valor da fama
são tolices ilusórias, passageiras (“vaidade”). Esta satisfação
falsa, enganadora, é estimulada pelas pessoas, que a chamam de honra.
Isso castiga grandemente os homens de coração tolo, vazio
(“peito vão”) que ambicionam o poder e a fama; fazendo com que experimentem
muitos suplícios (“mortes”, “perigos”, “tormentas”) e crueldade.
Note que a expressão
“peito vão”, nesta estrofe, se opõe à “experto peito”,
na estrofe anterior.
Essas estrofes remetem ao
livro bíblico de Eclesiastes, em que o rei Salomão
afirma e argumenta que “é tudo vaidade” (Eclesiastes 1:2) e que
“Melhor é ouvir a repreensão do sábio, do que ouvir
alguém a canção do tolo.” (Eclesiastes 7:5).
— "Dura inquietação
d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de
impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te
subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória
soberana,
Nomes com quem se o povo néscio
engana!
Esta ambição
causa angústia e perturbação (“inquietação
d’alma e da vida”), é origem de abandonos e adultérios e
destrói fortunas e Estados. Chamam-na de nobre e elevada, quando
é digna, merecedora, de desmoralizantes insultos, palavras infamantes.
Fama e glória são palavras para enganar o povo ignorante
e tolo.
—"A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta
gente?
Que perigos, que mortes lhe
destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de
minas
D'ouro, que lhe farás
tão facilmente?
Que famas lhe prometerás?
que histórias?
Que triunfos, que palmas, que
vitórias?
E o velho
pergunta que novos desastres serão causados ao reino e ao povo,
em nome de (disfarçados em) alguma palavra enobrecedora. Que promessas
fáceis serão feitas de reinos, de minas de ouro, famas, histórias
e triunfos para enganá-los?
— "Mas ó tu, geração
daquele insano,
Cujo pecado e desobediência,
Não somente do reino
soberano
Te pôs neste desterro
e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais
que humano
Da quieta e da simples inocência,
Idade d'ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d'armas te
deitou:
Mas o
gênero humano, descendente do insensato e demente cujo pecado provocou
não somente sua expulsão e exílio (“desterro e triste
ausência”) do paraíso (“reino soberano”), mas também
privou-o do estado de paz e de inocência da idade de ouro e o colocou,
o abateu (“te deitou”) na idade do ferro e das guerras.
— "Já que nesta gostosa
vaidade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta
crueza e feridade
Puseste nome esforço
e valentia,
Já que prezas em tanta
quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois
que já
Temeu tanto perdê-la quem
a dá:
Já
que, nessa prazerosa tolice, o homem tanto empenha, arrebata a imaginação,
a criatividade; já que dá o nome de esforço e valentia
à violenta crueldade e perversidade; já que dá tanto
valor ao desprezo pela vida, que deveria ser sempre amada e preservada,
pois até quem a deu teve medo de perdê-la (refere-se a Cristo,
que receou a morte, na noite anterior à sua crucificação).
— "Não tens junto contigo
o Ismaelita,
Com quem sempre terás
guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio
a lei maldita,
Se tu pela de Cristo só
pelejas?
Não tem cidades mil,
terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por
armas esforçado,
Se queres por vitórias
ser louvado?
Já
que é assim, não estão ali perto os Mouros (“o Ismaelita”),
com quem sempre terá guerras de sobra (muitos combates)? Não
seguem eles a lei maldita dos árabes (refere-se ao Corão
– lei islâmica, criada por Maomé, profeta de Alá),
enquanto você guerreia (“pelejas”) pela lei de Cristo? Se luta para
enriquecer (“terras e riqueza mais desejas”), os mouros tem muitas cidades
e terra; eles são guerreiros valentes (“por armas esforçado”),
se o que deseja é ser glorificado, elogiado pelas vitórias
na guerra.
Ismaelita
é a designação dada aos descendentes de Ismael, filho
de Abraão e da escrava Agar. Os ismaelitas viviam numa confederação
de tribos no deserto da Arábia e deram origem aos árabes.
— "Deixas criar às portas
o inimigo,
Por ires buscar outro de tão
longe,
Por quem se despovoe o Reino
antigo,
Se enfraqueça e se vá
deitando a longe?
Buscas o incerto e incógnito
perigo
Por que a fama te exalte e te
lisonge,
Chamando-te senhor, com larga
cópia,
Da Índia, Pérsia,
Arábia e de Etiópia?
Descuida
do inimigo próximo para buscar outro distante, por quem o reino
iria se despovoar, se enfraquecer e se perder. Procura o perigo impreciso
e desconhecido, para que a fama o celebre e elogie chamando-o, em grande
quantidade (“larga cópia”), de senhor da Índia, Pérsia,
Arábia e Etiópia.
O objeto
a quem se dirige o Velho vai mudando no decorrer do discurso. Primeiro
é um sentimento descrito como “glória de mandar” etc; depois
é a “geração daquele insano”, isto é, o gênero
humano; então é alguém que procura a guerra na Índia
(provavelmente Vasco da Gama e os navegantes) e, finalmente, o título
de “senhor da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia”
que identifica o próprio rei de Portugal.
— "Ó maldito o primeiro
que no mundo
Nas ondas velas pôs em
seco lenho,
Dino da eterna pena do profundo,
Se é justa a justa lei,
que sigo e tenho!
Nunca juízo algum alto
e profundo,
Nem cítara sonora, ou
vivo engenho,
Te dê por isso fama nem
memória,
Mas contigo se acabe o nome
e glória.
O Velho
amaldiçoa o homem que fez o primeiro barco (“pôs velas nas
ondas”), como merecedor do inferno (“dino da eterna pena do profundo”),
se houver justiça como a que ele acredita. Que nunca sejam feitos
um alto conceito, nem música (“cítara sonora”) ou poesia
(“vivo engenho”) que eternize sua memória por este feito (“Te dê
por isso fama nem memória”), mas que, com o inventor do primeiro
barco, morram sua fama, sua reputação (“seu nome”) e sua
glória.
— "Trouxe o filho de Jápeto
do Céu
O fogo que ajuntou ao peito
humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu
Em mortes, em desonras (grande
engano).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto para o mundo menos
dano,
Que a tua estátua ilustre
não tivera
Fogo de altos desejos, que a
movera!
Afirma
que o fogo que o filho de Jápeto trouxe do céu e deu aos
homens, esse fogo o mundo acendeu em armas, em mortes, em desonras. Foi
um grande erro (“engano”) dar o fogo à humanidade. Teria sido melhor
a nós e causado menos dano (prejuízo) ao mundo se a estátua
feita por Prometeu não tivesse o fogo do desejo que a movera.
O filho de Jápeto
era Prometeu, o titã que roubou o fogo aos deuses e o deu aos homens.
Prometeu trouxe o fogo do Olimpo escondido em uma estátua humana.
Foi condenado a ficar preso num rochedo enquanto uma águia lhe comia
as entranhas.
— "Não cometera o moço
miserando
O carro alto do pai, nem o ar
vazio
O grande Arquiteto co'o filho,
dando
Um, nome ao mar, e o outro,
fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água,
calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte, estranha
condição!" —
Se não
fosse esse fogo do desejo, o jovem miserável e digno de pena não
teria ousado guiar o carro do pai, nem o grande arquiteto e seu filho teriam
se arriscado a voar (“cometera o ar vazio”). Um deu nome ao mar e o outro
deu fama ao rio. Camões se refere a Faeton ou Faetonte, filho de
Apolo, o deus Sol, que foi imprudente e caiu com o carro do pai no rio
Eridano e Dédalo, arquiteto do labirinto, que, com cera e penas,
construiu asas para si e para seu filho Ícaro que, descuidado, voou
rumo ao sol e acabou caindo no mar.
Nenhum
empreendimento nobre ou perverso, por qualquer modo realizado (“Por fogo,
ferro, água, calma e frio”), o gênero humano (“humana geração”)
não tenta realizar (“deixa intentado”). É um destino
miserável e uma estranha obrigação (ou um estado,
um modo de ser esquisito).
O ANTICLÍMAX
O episódio
do Velho do Restelo representa um notável contraponto à glorificação
das navegações portuguesas intentada por Camões no
transcorrer de todo o poema. O professor Alfredo Bosi o considera, portanto,
o anticlímax da narrativa. Em seu livro Dialética da
Colonização (Companhia das Letras, 1992) afirma que:
A fala do
Velho destrói ponto por ponto e mina por dentro o fim orgânico
dos Lusíadas, que é cantar a façanha do Capitão,
o nome de Aviz, a nobreza guerreira e a máquina mercantil lusitana
envolvida no projeto. (…)
A viagem
e todo o desígnio que ela enfeixa aparecem como um desastre para
a sociedade portuguesa: o campo despovoado, a pobreza envergonhada ou mendiga,
os homens válidos dispersos ou mortos, e, por toda parte, adultérios
e orfandades. “Ao cheiro desta canela / o reino se despovoa”, já
dissera Sá de Miranda.
A mudança
radical de perspectiva (que dos olhos do Capitão passa para os do
Velho do Restelo) dá a medida da força espiritual de um Camões
ideológico e contra-ideológico, contraditório e vivo.
(…)
No
largar da aventura marítima e colonizadora o seu maior escritor
orgânico se faria uma consciência perplexa: “Mísera
sorte! Estranha condição!”
O poeta
admite, portanto, no momento de ápice de sua narrativa, o instante
tão sonhado em que a esquadra de Vasco da Gama inicia sua viagem,
uma voz contrária à aventura que pretende glorificar.