Os Lusíadas
(1572)
NARRAÇÃO
A narração
consiste, portanto, na maior parte do poema. Inicia-se "In Media Res",
ou seja, em plena ação. Vasco da Gama e sua frota se dirigem
para o Cabo da Boa Esperança, com o intuito de alcançarem
a Índia pelo mar. Auxiliados pelos deuses Vênus e Marte e
perseguidos por Baco e Netuno, os heróis lusitanos passam por diversas
aventuras, sempre comprovando seu valor e fazendo prevalecer sua fé
cristã. Ao pararem em Melinde, ao atingirem Calicute, ou mesmo durante
a viagem, os portugueses vão contando a história dos feitos
heróicos de seu povo. Completada a viagem, são recompensados
por Vênus com um momento de descanso e prazer na Ilha dos Amores,
verdadeiro paraíso natural que em muito lembra a imagem que então
se fazia do recém descoberto Brasil.
ESTRUTURA NARRATIVA
O poema
se estrutura através de uma narrativa principal, que apresenta a
viagem da armada de Vasco da Gama. A esse fio narrativo condutor é
incorporada inicialmente a narração feita por Vasco da Gama
ao rei de Melinde, em que conta a história de Portugal até
a sua própria viagem. Na voz do Gama, ouvem-se os feitos dos heróis
portugueses anteriores a ele, como Dom Nuno Álvares Pereira, o caso
de amor trágico de Inês de Castro, o relato de sua própria
partida, com o irado e premonitório discurso do Velho do Restelo
e o episódio do Gigante Adamastor, representação mítica
do Cabo da Boa Esperança.
Em seguida
são acrescentadas as narrativas feitas aos seus companheiros pelo
marinheiro Veloso, que relata o episódio dos Doze da Inglaterra.
Por fim, já na Índia, Paulo da Gama, irmão de Vasco,
conta ainda outros feitos heróicos portugueses ao Catual de Calicute.
A estrutura
narrativa do poema é composta, portanto, por três narrativas
remetendo à história de Portugal, interligadas pela narração
da viagem de Vasco da Gama.
ECLETISMO RELIGIOSO
O poema
apresenta um ecletismo religioso bastante curioso. Mescla a mitologia greco-romana
a um catolicismo fervoroso. Protegidos pelos deuses, os portugueses procuram
impor aos infiéis mouros sua fé cristã. O português
é visto por Camões como representante de toda a cultura ocidental,
batendo-se contra o inimigo oriental, o árabe não-cristão.
Todo esse fervor religioso não impede a utilização
pelo poeta do erotismo de cunho pagão, como no episódio da
Ilha dos Amores e seus defensores lusitanos são protegidos, ao longo
de todo o poema, por uma deusa pagã, Vênus. É curioso
notar que a imagem clássica do deus romano Baco (o Dioniso dos gregos),
amigo do vinho e do desregramento, inimigo maior dos portugueses, é
a de um ser de chifres e rabo. A mesma que foi utilizada pela igreja católica
para representar o demônio.