Nos últimos quatro
séculos Os Lusíadas serviram de fonte de inspiração
para inúmeros poetas e prosadores da língua portuguesa. Os
poemas abaixo, de dois dos maiores escritores portugueses do século
XX, apresentam diferentes visões da fala do Velho do Restelo.
FALA DO VELHO DO RESTELO
AO ASTRONAUTA
José Saramago
in Poemas Possíveis
(1966)
Aqui na terra a fome continua A miséria e o luto A miséria e o luto e
outra vez a fome Acendemos cigarros em fogos
de napalm E dizemos amor sem saber o que
seja. Mas fizemos de ti a prova da
riqueza, Ou talvez da pobreza, e da fome
outra vez. E pusemos em ti nem eu sei que
desejos De mais alto que nós,
de melhor e mais puro. No jornal soletramos de olhos
tensos Maravilhas de espaço
e de vertigem. Salgados oceanos que circundam Ilhas mortas de sede onde não
chove. Mas a terra, astronauta, é
boa mesa (E as bombas de napalm são
brinquedos) Onde come brincando só
a fome Só a fome, astronauta,
só a fome.
MAR PORTUGUÊS
Fernando Pessoa
in Mensagem (1934)
Ó mar salgado, quanto
do teu sal São lágrimas de
Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães
choraram, Quantos filhos em vão
rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó
mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é
pequena. Quem quer passar além
do Bojador Tem que passar além da
dor. Deus ao mar o perigo e o abismo
deu, Mas nele é que espelhou
o céu.
O texto de Fernando
Pessoa aparenta ser uma resposta à fala do Velho do Restelo. Admite
o sofrimento advindo das grandes navegações, mas considera
que foi necessário para a conquista do mar. A resposta de Pessoa
ao Velho do Restelo é que “Tudo vale a pena / Se a alma não
é pequena.” Já o poema de Saramago atualiza a fala camoniana,
trazendo-a para o contexto da exploração espacial. Como o
velho, Saramago alerta o astronauta, moderno navegador, para os problemas
que deixa na terra. Assim, Saramago reitera o discurso da personagem camoniana,
agora em contexto universal.