Episódio de
Inês de Castro
(Canto III, estrofes 118 a
135)
Passada esta tão próspera
vitória,
Tornado Afonso à Lusitana
Terra,
A se lograr da paz com tanta
glória
Quanta soube ganhar na dura
guerra,
O caso triste e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e
mesquinha
Que despois de ser morta foi
Rainha.
O rei Afonso
voltou a Portugal, depois da vitória contra os mouros, esperando
obter tanta glória na paz quanto obtivera na guerra. Então
aconteceu o triste e memorável caso da desventurada que foi rainha
depois de ser morta, assassinada.
Tu, só tu, puro Amor,
com força crua,
Que os corações
humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta
morte sua,
Como se fora pérfida
inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede
tua
Nem com lágrimas tristes
se mitiga,
É porque queres, áspero
e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.
O Amor, somente
ele, foi quem causou a morte de Inês, como se ela fosse uma inimiga.
Dizem que o Amor feroz, cruel, não se satisfaz com as lágrimas,
com a tristeza, mas exige, como um deus severo e despótico, banhar
seus altares (“aras”) em sangue humano: requer sacrifícios humanos.
A palavra "pérfido", na
obra, geralmente se refere aos Mouros inimigos. Nesse verso, parece indicar
que Inês foi morta com a mesma crueldade que se usava contra eles.
Estavas, linda Inês, posta
em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo
e cego,
Que a Fortuna não deixa
durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca
enxuito,
Aos montes insinando e às
ervinhas
O nome que no peito escrito
tinhas.
Inês estava
em Coimbra, sossegada, usufruindo (“colhendo doce fruito”) da felicidade
ilusória (“engano da alma, ledo e cego”) e breve (“Que a Fortuna
não deixa durar muito”) da juventude. Nos campos, com os belos olhos
úmidos de lágrimas de amor, repetia o nome do seu amado aos
montes (para cima, para o alto) e às ervas (para baixo, para o chão).
As formas "fruito"
e "enxuito" são variantes de “fruto” e “enxuto”. Durante muito tempo,
enquanto a Língua Portuguesa se solidificava, essas variantes foram
utilizadas simultaneamente. A Língua Portuguesa acabou por definir
"fruto" e "enxuto" como a forma culta. Na época de Camões,
palavras como despois, fruito, enxuito e escuito eram as mais usadas. Ele,
então, prefere estas formas para se adequar à estrutura poética
de Os Lusíadas - a oitava rima -, formada por versos decassílabos
(heróicos ou sáficos), e respeitar o sistema rítmico
dos versos - abababcc. Portanto, fruito (verso 2) e enxuito (verso
6) são as rimas cabíveis a muito (verso 4). Estas formas
arcaicas ainda são utilizadas em muitas regiões.
Do teu Príncipe ali te
respondiam
As lembranças que na
alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te
traziam,
Quando dos teus fermosos se
apartavam;
De noite, em doces sonhos que
mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto
via
Eram tudo memórias de
alegria.
As lembranças
do Príncipe respondiam-lhe, em pensamentos e em sonhos, quando ele
estava longe. Isto é, a memória do amado fazia com que Inês
conversasse com ele, quando este estava ausente. Ambos não se esqueciam
um do outro e se “comunicavam” através da memória, em forma
de pensamentos e sonhos. Assim, tudo quanto faziam ou viam os fazia felizes,
porque lembravam dos respectivos amados.
Esta estrofe é bastante
ambígua. As lembranças do Príncipe vinham à
mente de Inês como resposta aos seus cuidados amorosos; por outro
lado, as mesmas lembranças, agora de Inês, existiam (moravam)
na alma do príncipe quando estava longe da amada. Os sonhos e os
pensamentos dos versos 5 e 6, dois modos de lembranças, pertencem
indistintamente ao amado e à amada. E o sujeito de cuidava e via,
no verso 7, tanto pode ser ela quanto o Príncipe.
De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos
enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor,
desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não
queria,
O Príncipe
se recusa a casar com outras mulheres (tálamo: casamento, leito
conjugal) porque o amor despreza, rejeita tudo que não seja o rosto
do amado (gesto significa rosto, semblante) a quem está sujeito.
Ao ver este estranho amor, este comportamento estranho de não querer
se casar, o pai sisudo (sério, grave) atende ao murmurar do povo
e…
Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem
preso,
Crendo c’o sangue só
da morte ladina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada
fina,
Que pôde sustentar o grande
peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hûa fraca dama
delicada?
… decide matar
Inês, para que o filho seja libertado do seu amor. O pai acredita
que só o sangue da morte apagará o fogo do amor. Que fúria
foi essa que fez com que a espada cortante que afrontara o poder dos Mouros
fosse levantada contra uma frágil e indefesa mulher?
Traziam-na os horríficos
algozes
Ante o Rei, já movido
a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte
crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas
vozes,
Saídas só da mágoa
e saudade
Do seu Príncipe e filhos,
que deixava,
Que mais que a própria
morte a magoava,
Quando
os horríveis e cruéis carrascos trouxeram Inês perante
o rei, este já estava compadecido (com dó) e arrependido.
No entanto, o povo persuadia, incitava o rei a matá-la. Inês,
então, com palavras ou com a voz triste, sentindo mais pela dor
e saudade do príncipe e dos filhos do que pela própria morte…
Pera o céu cristalino
alevantando,
Com lágrimas, os olhos
piedosos
(Os olhos, porque as mãos
lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E despois, nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha
e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe
temia,
Pera o avô cruel assi
dizia:
Levantando
os olhos cheios de lágrimas ao céu (somente os olhos, porque
um carrasco prendia-lhe as mãos) e, depois, olhando para as crianças
- que amava tanto e temia que ficassem órfãs -, disse para
o avô cruel (o rei):
Se já nas brutas feras,
cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas tem
o intento,
Com pequenas crianças
viu a gente
Terem tão piedoso sentimento
Como c’o a mãe de Nino
já mostraram,
E c’os irmãos que Roma
edificaram:
“Se já
vimos que até os animais selvagens, cujos instintos são cruéis,
e as aves de rapina têm piedade com as crianças, como demostraram
as histórias da mãe de Nino e a dos fundadores de Roma…”
Semíramis, rainha da Assíria
e mãe de Nino, a abandonara num monte. Nino foi alimentada por aves
de rapina. Rômulo e Remo, fundadores de Roma, foram abandonados quando
infantes e amamentados por uma loba.
Ó tu, que tens de humano
o gesto e o peito
(Se de humano é matar
hûa donzela,
Fraca e sem força, só
por ter sujeito
O coração a quem
soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à
morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa
que não tinha.
Sendo
assim, ele, o rei, que tinha o rosto e o coração humanos
(se é que é humano matar uma mulher só porque esta
ama um homem que a conquistou), poderia ao menos ter respeito e consideração
às crianças, ainda que não se importasse com a triste
morte da mãe. Inês suplica, então, que o rei se compadeça
dela e das crianças, já que não queria perdoá-la
ou absolvê-la de uma culpa, um crime, que não tinha cometido.
E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e
ferro,
Sabe também dar vida,
com clemência,
A quem peja perdê-la não
fez erro.
Mas, se to assi merece esta
inocência,
Põe-me em perpétuo
e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá
na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva
eternamente.
E se o
rei sabia dar a morte, como o mostrara ao vencer os Mouros, também
saberia dar a vida a quem era inocente. Mas, se apesar da sua inocência,
ainda a quisesse castigar, que a desterrasse, expulsasse, para uma região
gelada ou tórrida, para sempre.
Põe-me onde se use toda
a feridade,
Entre leões e tigres,
e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não
achei.
Ali, c’o amor intrínseco
e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relíquias suas
que aqui viste,
Que refrigério sejam
da mãe triste.)
Que ele
a colocasse entre as feras, onde poderia encontrar a piedade que não
achara entre os homens. Ali, por amor daquele por quem morria ou sofria,
criaria os filhos, que era recordações do pai e seriam consolação
da mãe.
Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe
não perdoam.
Arrancam das espadas de aço
fino
Os que por bom tal feito ali
apregoam.
Contra hûa dama, ó
peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?
O rei
bondoso queria perdoar Inês, comovido por suas palavras. Mas o povo
obstinado, persistente e o destino de Inês (que assim o quis) não
lhe perdoaram. Os que proclamavam que ela deveria morrer puxam suas espadas.
Mostram-se valentes atacando uma dama.
Qual contra a linda moça
Policena,
Consolação extrema
da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a
condena,
C’o ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o
ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mísera mãe
postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se
oferece:
Assim como Pirro
se prepara com a espada (“ferro”) para matar Policena, por ordem do fantasma
de Aquiles, e ela - mansa e serenamente -, movendo os olhos para a mãe,
enlouquecida de dor, oferece-se ao sacrifício…
Aquiles, herói
da guerra de Tróia, era invulnerável por ter sido submergido,
logo ao nascer, na água da lagoa Estígia (Lagoa da Morte).
Personagem da Ilíada de Homero, morreu durante a guerra de Tróia,
quando foi atingido por uma seta no calcanhar, o único ponto vulnerável
do seu corpo. Pirro, filho de Aquiles, teria sido aconselhado pelo fantasma
(“sombra”) do pai a matar Policena, noiva do herói morto. Matou-a
quando esta se encontrava sobre o túmulo de Aquiles.
Tais contra Inês os brutos
matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou
de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas
flores,
Que ela dos olhos seus regadas
tinha,
Se encarniçavam, fervidos
e irosos,
No futuro castigo não
cuidosos.
Do mesmo
modo agem os cruéis assassinos de Inês. No pescoço
(“colo”) que sustenta o belo rosto (“as obras”: o sorriso, o olhar, os
movimentos do rosto) pelo qual se apaixonou (o deus Amor, Cupido, fez morrer
de paixão) o príncipe, que depois a fará rainha, eles
(os matadores) banham, lavam suas espadas e também as faces pálidas
(“brancas flores”) e molhadas de lágrimas de Inês; atacavam
enraivecidos, sem pensarem no castigo que o futuro lhes reservava.
Camões supõe que Inês foi degolada, como Policena oferecendo
o pescoço ao golpe, e o sangue escorreu sobre seu rosto.
Bem puderas, ó Sol, da
vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão
de Atreu comia!
Vós, ó côncavos
vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca
fria,
O nome do seu Pedro, que lhe
ouvistes,
Por muito grande espaço
repetistes.
Naquele
dia, o sol deveria ter-se escondido, como fizera quando Tiestes comeu os
próprios filhos em um banquete servido por Atreu, para não
ver o terrível crime. A última palavra de Inês - o
nome de Pedro, o príncipe - ecoou longa e repetidamente através
da região.
Camões
iguala a crueldade da morte de Inês à da história de
Atreu e Tiestes. Tiestes era filho de Pélops e irmão de Atreu.
Seduziu a esposa do irmão. Atreu deu a comer a Tiestes os filhos
que nasceram daquela união.
Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida
e bela,
Sendo das mãos lascivas
maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor
murchada:
Tal está, morta, a pálida
donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce
vida.
Como uma
flor colhida precocemente pelas mãos travessas (“lascivas”) de uma
menina para colocá-la numa grinalda (“capela”), assim está
Inês, sem perfume e sem cor. Morta, pálida, com as faces (“do
rosto as rosas”) secas, murchas, sem rubor. O padrão de beleza feminino
era uma combinação de branco na testa, colo, etc. (“branca
e viva cor” ) e vermelho (“viva cor”) nas “rosas” do rosto.
As filhas do Mondego a morte
escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna,
em fonte pura
As lágrimas choradas
transformaram.
O nome lhe puseram, que inda
dura,
Dos amores de Inês, que
ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as
flores,
Que lágrimas são
a água e o nome Amores.
As ninfas
do Mondego (rio de Portugal), durante muito tempo, lembraram chorando a
morte de Inês. E, para sua memória eterna, as lágrimas
transformaram-se numa fonte chamada “dos amores de Inês”, acontecidos
ali. A fonte que rega as flores é refrescante porque é feita
de lágrimas e de amores.