Novembro de 1998. Recebo por e-mail, vindos lá da Paraíba,
alguns poemas do crítico e professor universitário Amador
Ribeiro Neto. Vêm constrangidos, com um pedido de desculpas: “Me
sinto meio envergonhado de te mandar as coisas e loisas cometidas em nome
da dita poesia fezes.”
Espanto-me. Já conhecia o crítico
atento e perspicaz , mas o poeta ainda não havia mostrado
a sua cara. E o que leio são textos contundentes, escritos com rigor
e perpassados por uma dicção personalíssima. Raros.
Raríssimos nesse mar de “correção” retrógrada
que tem dominado a nossa poesia nos últimos tempos. Além
da verborragia pseudopoética de sempre, lêem-se às
pencas poemas “certinhos”, “bem feitinhos”. Mas onde está a poesia
pungente, que fere, que coloca o dedo nas feridas? Feridas da linguagem
e (por que não?) da vida.
Assim descobri os poemas de Amador Ribeiro Neto. Espantei-me e alegrei-me.
E outros poemas foram chegando por e-mail. Formaram um livro. Na esperança
de dividir com mais leitores o meu entusiasmo, escolhi 11 dos textos de
barrocidade. Aí vão, com a certeza de que podem representar
uma luz - ou uma pedrada, o que é bem melhor - na estagnação
poeticamente correta de hoje.
cães são sempre cães
vadios
mães são sempre mulheres
santas de nossos pais
espírito santo
quase sempre é pomba
sempre funciona pomba
gira
lua e poetas concretos passeiam no chão
correto de perdizes
sampa inunda-se em barracos norte-destinos
do brasil liberal-gerou
uma mulher se foi & veio se de longe
se sem cajado
assoviando dois rocks pauleiras de arnaldo
antunes titã poeta
a mulher gordabaixa de olhos grossos
na fotografia da parede sem o
destino calejado dos açuns
volta disse que disse que volta
sol de arames e néons na barraca
hippie apesar de pós-tudo
goiabada com queijo alfenim farinha seca
gaiolas graviolas
bips da voz sem nem vitrolas ora bolas
cara desencana orra
só
falta água e falta
água tens e não tens
os surfistas de são miguel paulista
quebram ondas
nos tetos dos trens
adoça o cazzo o cacete o caralho
a porra desta saudade
amor
telefone email fax correio
ligações estão ficando
perigosas demais
literatura já deu cinema cinema
deu cama em motel de segunda
a sábado menos domingo deus sabe
lá por que diabos este
caso pode dar dor de cabeça das
brabas em sendo
assim eu li em camões nos tempos
de ginásio inês é morta já
não sou mais bobo de voar de avião
asa delta coração
sem reservas
pelo centro histórico de joão
pessoa
veneráveis
velhinhas
levam
piegas
seus
preconceitos
em
andores
católicos
com a pia ajuda do padre pio
no puleiro de galho de goiabeira um pinto
se constrange pacaralho com a voz
de ave que tem
nesta idade
verde
guarda-roupa da história com h e
neocapitais
fantasias teias redes telas cabos teles
naves tels veias nets poeiras
sertão vip varandas antenadas na
capa das revistas in
morenos pretos brancos amarelos seixos
farolizando macaxeiras pra matar fome
com farinha de mandioca
história música cidades
crenças ourivesarias artesanatos contrabandos
oceanos sertões caviares ouropéis
rapaduras campos descompassos
guarda-fantasias guarda-enredos guarda-estruturas
guarda-sons
que são
frente às descobertas da poesia
hein cabral
ao Bernardo e ao Pedro
o menino cresceu guinou pra guitarra pro
uivo pro grito pro berro
me diz que é assim que se faz pra
ser feliz
menino nasceu de mim
agora é estrangeiro de si em si
de mim em mim
figurino assusta cães do vizinho
assim na roda da folia tudo pode tudo
fode tudo mamãe sacode
papai meu namorado é homem que
nem eu
nem sei assim porque tanta satisfação
neste amor stone
repente epifania joyceclarice
clara desrevelação
ventania pro pelourinho lindo nas cores
turistas
olhos vazados engendrados girassóis
gel roxos nós
e o turista
rindo louro bem carla pedes bumba
meu boi bumba minha boi bumba meu oi
bomba eu cima baixo atrás na frente
entre dentro teu tu
ardente ao ponto
nega nova véia média serena
baiana serve cocadas oitenta centavos nem
cinqüenta cents apenas só
isso preço promoção seo gringo munheca pão-duro
filhodaputa
Amador Ribeiro Neto, Doutor em Semiótica pela PUC-SP, é Professor de Teoria da Literatura na UFPB (Universidade Federal
da Paraíba). Durante muitos anos, escreveu regularmente crítica literária em diversos jornais de São Paulo. Atualmente, assina coluna semanal no jornal A União (João Pessoa, PB).